Imagem da matéria: De US$ 40 bilhões a zero: quem é Do Kwon, o homem que deu um golpe mundial com a criptomoeda LUNA
Do Kwon, fundador da Terraform Labs (Foto: Divulgação/Medium)

Existe uma lista enorme de fatores, empresas e pessoas que podem ser acusadas pelo colapso da blockchain Terra, cuja criptomoeda LUNA afundou de US$ 87 para zero no espaço de 24 horas.

Mas há um nome em especial que entrou para o centro da artilharia de críticas: Do Kwon, um sul-coreano de 30 anos de idade que fundou o projeto Terraform Labs em janeiro de 2018.

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Desde o início da criação do ecossistema Terra – que deu origem à Luna e à stablecoin algorítmica UST, que também colapsou – a marca registrada do promissor desenvolvedor formado em Stanford foi a confiança. Ao longo de sua trajetória, Kwon se mostrou inabalável aos críticos e na defesa do que vendia como uma revolução do sistema financeiro descentralizado.

Até que tudo ruiu como uma castelo de cartas.

No mês passado, Luna chegou a atingir um valor de mercado de US$ 41 bilhões; neste domingo (15), ela chegou ao fundo de poço ao se reduzir para menos de US$ 1,4 bilhão, segundo dados do portal CoinGecko

O preço do token ganha um novo zero à direita da casa decimal praticamente a cada dia. No momento da conclusão deste texto, ele é cotada a US$ 0,002. Desvalorizado, o criptoativo abunda no mercado, à procura de compradores inexistentes: são mais 6 trilhões de tokens inundando as plataformas de negociação.

Como se não bastasse, o colapso do projeto Terra levou junto o resto do mercado de criptomoedas, que perdeu mais de R$ 1 trilhão com a crise.

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São números como esse que mostram que Do Kwon empurrou para dentro do mercado um sistema que, no mínimo, tinha graves problemas – com potencial até para ser visto por especialistas como uma pirâmide financeira, um golpe no melhor estilo Ponzi.

Pirâmide em construção

Antes de tudo dar errado para o ecossistema Terra, Do Kwon foi muito bem-sucedido em fazer com que investidores comprassem suas ideias.

Um de seus trunfos era a formação exemplar. Após passar parte inicial da vida em Seul, na Coreia do Sul, Do Kwon se mudou para os Estados Unidos para estudar ciência da computação na prestigiada universidade de Stanford. Segundo o jornal Korea Economic Daily, Kwon trabalhou como engenheiro em grandes empresas de tecnologia, como a Microsoft e a Apple, ao mesmo tempo em que começou a se interessar pelo mundo das criptomoedas.

Em 2018, na Coreia, criou a Terraform Labs. Com os contatos obtidos na trajetória corporativa, começou a atrair dinheiro de gestoras de capital de risco e lançou as criptomoedas do ecossistema Terra: Luna e UST.

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Mas Terra ia além dos tokens, desenvolvendo projetos paralelos que integravam as partes do projetos. Um deles era o protocolo Anchor. O Anchor era o principal responsável pelas operações de staking e empréstimos de UST. Para incentivar os usuários a utilizar o serviço, o projeto prometia pagar um rendimento anual (APY) de 19,5%, sem risco.

Para conseguir pagar essa porcentagem acima do mercado, o Terra precisava injetar dinheiro no protocolo. A esperança da empresa era que, no futuro, com uma base de usuários grande o suficiente usando UST, o projeto andaria por conta própria, sem necessitar do capital da empresa.

O lucro do sistema neste início, portanto, dependia da “engrenagem” conseguir atrair um número cada vez maior de usuários – uma pirâmide em plena construção.

No meio desse esquema complexo, Do Kwon decidiu trazer bitcoin para a história e comprou US$ 3,5 bilhões da criptomoeda para a reserva da Luna Foundation Guard. A fundação tinha a responsabilidade de garantir que o lastro do UST se mantivesse sempre US$ 1.

Quando a stablecoin perdeu seu lastro, a Luna Foundation Guard vendeu toda sua reserva de bitcoin para comprar os tokens UST que estavam sendo despejados no mercado – mas isso não foi suficiente para salvar a stablecoin.

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Nessa tentativa frustrada, além de não conseguir recuperar o preço do UST, a Fundação Luna também provocou a queda do bitcoin. Dessa forma, as criptomoedas do Terra desabaram em poucos dias, arrastando para baixo a reputação de Kwon.

Lunático

Até lá, no entanto, o sistema parecia funcionar bem. A promessa de altos retornos sem riscos atraiu uma multidão de usuários e Terra, Luna e UST cresceram de status dentro da comunidade a ponto de fazer pessoas tatuarem na pele o logotipo do projeto.

No Brasil, YouTubers e influencers de criptomoedas recomendavam enfaticamente o produto. Na mesma medida, Do Kwon ia se tornando cada vez mais arrogante. 

Nas redes sociais, o coreano se mostrava incapaz de aceitar qualquer crítica e contra-atacava os comentários com piadas de mau gosto e linguagem chula, se comportando como um verdadeiro lunático — como são apelidados os fãs de Luna.

Em novembro de 2021, um usuário do Twitter publicou uma thread descrevendo como, com dinheiro suficiente, era possível atacar a Luna num ataque semelhante ao “Black Wednesday” de George Soros.

A reação de Do Kwon: risadas.

“Provavelmente a thread mais retardada que eu já li nessa década. Silêncio é uma opção perfeitamente aceitável para os estúpidos. Bilionários que me seguem, vão lá e vejam o que acontece”, escreveu Kwon, incitando o ataque.

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Nos últimos meses, Do Kwon também passou a atacar projetos concorrentes no mercado, como a stablecoin DAI da MakerDAO. “Nas minhas mãos, DAI vai morrer”, disse ele no final de março. Uma ironia, considerando o estado atual do UST.

Até mesmo no início de maio, quando o UST começou a perder sua paridade com o dólar americano, Kwon rebateu os críticos, chamando-os de pobres:

“Vocês podem ouvir os influenciadores cripto sobre a desconexão do UST pela 69ª vez.  Ou você pode se lembrar que eles são todos pobres agora e ir caminhar em vez disso”.

Kwon chegou ao ponto de aceitar uma aposta de US$ 1 milhão com o investidor AlgodTrading de que a Luna valeria mais no ano seguinte do que valia no momento da discussão, em março. 

Depois disso, outros usuários de Twitter com dinheiro no bolso entraram na brincadeira. O @GiganticRebirth, por exemplo, aumentou a aposta para US$ 10 milhões e mais uma vez, Kwon aceitou, confiante de que a Luna não iria cair.

Quando o usuário tentou dobrar a aposta para US$ 20 milhões, no entanto, Kwon parou de responder. Agora, além de acumular inimigos, o criador da Luna também tem uma dívida de US$ 11 milhões na praça para se preocupar.

Profissional do fracasso

Foi preciso o colapso do sistema Terra para que começassem a vir à tona novas informações sobre o passado de Do Kwon – que traçam um panorama ainda menos abonador sobre sua figura.

Ele havia escondido, por exemplo, sua participação no surgimento de uma stablecoin que também fracassou.

Trata-se da Basis Cash (BAC), uma stablecoin algorítmica que o desenvolvedor criou sob o pseudônimo de Rick & Morty, uma referência ao desenho animado. Kwon seria o Rick e seu amigo cofundador, Morty.

De acordo com o CoinDesk, dois funcionários da Terraform Labs e Hyungsuk Kang, ex-engenheiro da empresa, confirmaram que o Basis Cash era um projeto paralelo de Kwon.

A moeda foi criada no final de 2020 e da mesma forma como o UST, não conseguiu manter seu preço em US$ 1 – e caiu na vala do esquecimento no mercado.

Encrenca com reguladores

No passado, o desenvolvedor coreano também arrumou problemas com os reguladores da SEC, a instituição que regula o mercado americano de investimentos.

Em setembro do ano passado, Do Kwon estava em Nova York para participar de uma conferência cripto do Messari. Quando descia do elevador para entrar no palco, o coreano foi intimado por um representante da SEC, conforme mostrou na época o Decrypt.

Na ocasião, a SEC queria interrogar Kwon sobre o Mirror Protocol, um projeto DeFi da sua empresa Terraform Labs. 

Até hoje, os reguladores investigam se o Mirror Protocol infringiu as leis americanas ao oferecer aos investidores a negociação de versões sintéticas de ações.

Pós-Apocalipse

Nos últimos dias, após o apocalipse do Terra, Do Kwon mudou sua postura nas redes sociais. Se manteve silencioso na maior parte do tempo, sem piadas ou chamando os seus críticos de pobre. Apareceu basicamente para divulgar um plano de reestruturação de Luna que é apontado por especialistas como tendo baixa chance de salvar a criptomoeda.

As consequências da queda, no entanto, podem ir bem além do plano virtual. Analistas tem como quase inevitável o surgimento de processos judiciais contra Kwon, com acusações que podem ir de má gestão dos negócios à criação de esquemas fraudulentos.

Em alguns casos, a indignação dos investidores que perderam dinheiro com Luna e UST podem tomar outros caminhos. Na sexta-feira, uma série de reportagens da imprensa americana afirmava que a esposa de Kwon teve que pedir proteção à polícia sul-coreana após um indivíduo – ainda não identificado – ter invadido um apartamento que o casal mantém no país, à procura do empresário.

Programas de discussão como o Reddit e o Discord foram tomados por ameaças contra Kwon – além de relatos, ainda sem confirmação, sobre investidores que teriam cometido tentativas de suicídio após perderem todo o seu dinheiro.

Além do silêncio e das vagas promessas de recuperação, Do Kwon tem oferecido pouco a quem depositou nele sua confiança. No sábado (14), pela primeira vez, revelou um pouco de seus sentimentos sobre a semana em que o Terra deixou o mundo das criptomoedas – e as vidas de milhões de pessoas – de pernas para o ar. “Eu estou de coração partido que minha invenção tenha trazido tanta dor a todos vocês”, tuitou.

Se precisar de ajuda psicológica, ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida):

Fone gratuito: 188
www.cvv.org.br

*Correção: Por erro de edição, o sistema de funcionamento da Luna foi descrito de maneira errada. O texto foi corrigido.

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