Sam Bankman-Fried da FTX falando em vídeo
Sam Bankman-Fried no DealBook Summit de 2022 (Foto: Reprodução)

Fundada em maio de 2019 por Sam Bankman-Fried (também conhecido como SBF), a FTX Trading rapidamente ganhou destaque no mercado de criptomoedas, chegando ao seu topo em julho de 2021 quando, com um milhão de clientes, se tornou a terceira maior exchange de criptomoedas do mundo. Mas tão rápida quanto sua ascensão, foi a sua queda.

Em novembro de 2022, a FTX entrou com o chamado pedido do Capítulo 11 o que nos Estados Unidos é algo como a recuperação judicial no Brasil , para um mês depois o seu fundador ser preso nas Bahamas, onde ficava a sede da empresa.

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Depois de voltar para os EUA, ser solto e preso mais uma vez, SBF agora se prepara para passar pelo que promete ser o maior julgamento de um empresário do mercado de criptomoedas até agora.

Previsto para iniciar em 3 de outubro, ele será julgado não só pela crise de sua empresa, mas diversas acusações que recaíram sobre ele desde então, passando por fraude, desvio de recursos de clientes e até financiamento ilegal de campanha eleitoral.

Em meio às acusações de diversos crimes e ao impacto que eles tiveram no mercado cripto nos últimos meses, o que não faltaram foram histórias bizarras e fatos estranhos que rodeiam a FTX e Bankman-Fried.

O que aconteceu com a FTX?

No dia 11 de novembro de 2022, a FTX entrou com um pedido de recuperação judicial nos EUA após um artigo do site CoinDesk desencadear uma série de eventos que deixou a empresa totalmente sem recursos para se sustentar.

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Tudo teve início quando o site afirmou que a empresa parceira da FTX, a Alameda Research, tinha uma parte significativa de seus recursos no token nativo da exchange, o FTT. Com a revelação, o CEO da rival Binance, Changpeng “CZ” Zhao, disse que a empresa iria vender suas participações no ativo.

Isso levou a uma corrida desenfreada de clientes querendo sacar seus recursos da FTX, que perdeu o controle e não conseguiu mais atender a demanda de retiradas, levando a um cenário de suspensão de saques e atrasos de pagamentos.

A Binance ainda chegou a fazer uma oferta para comprar a FTX, prometendo que iria resgatar a empresa e garantir que os clientes recuperassem seus recursos. Porém, a exchange desistiu da aquisição ao avaliar a empresa de perto, o que levou a uma nova onda de problemas diante de acusações de mau uso dos recursos de clientes.

Com todos esses problemas e novas denúncias surgindo a cada dia, Sam Bankman-Fried acabou preso no dia 12 de dezembro de 2022 nas Bahamas, onde ficou apenas 10 dias até ser solto com o pagamento de fiança, retornando em seguida aos EUA. Em agosto de 2023, SBF voltou a ser preso após um juiz revogar sua fiança e agora aguarda preso o seu grande julgamento em outubro.

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As acusações contra SBF e a FTX

Tão logo a FTX entrou com seu pedido de recuperação judicial, a empresa recebeu diversos processos. Contra SBF, promotores federais da Procuradoria dos EUA para o Distrito Sul de Nova York apresentaram oito acusações, entre elas:

  • Conspiração para cometer fraude eletrônica em prejuízo dos clientes da FTX
  • Fraude eletrônica em prejuízo dos clientes
  • Conspiração para cometer fraude eletrônica em prejuízo de credores
  • Fraude eletrônica em prejuízo de credores
  • Conspiração para cometer fraudes de commodities
  • Conspiração para cometer fraudes de valores mobiliários
  • Conspiração para cometer lavagem de dinheiro
  • Conspiração para fraudar os EUA e violar as leis de financiamento de campanhas eleitorais

Um tempo após apresentarem as acusações, os promotores entraram com um pedido de substituição de algumas delas, mas a defesa de SBF, liderada pelos famosos advogados Mark Cohen e Christian Everdell, argumentou com sucesso que não podem ser apresentadas neste momento devido às obrigações do tratado de extradição internacional.

Com isso, um segundo julgamento está previsto para acontecer no próximo ano para tratar dessas outras acusações.

Ex-namorada, salário do pai e a vida na prisão

Estes quase 10 meses desde o início da crise da FTX foi cercado por uma série de histórias no mínimo curiosas. Ainda antes do pedido de recuperação judicial e da prisão de SBF, apareceu no centro do noticiário cripto Caroline Ellison, que na época era co-CEO da Alameda Research e ex-namorada de Bankman-Fried.

Caroline Ellison ex-CEO da Alameda Research
Caroline Ellison, a ex-CEO da Alameda Research (Foto: Reprodução/Twitter)

Tão logo a FTX passou a enfrentar problemas, o fundador da corretora colocou a culpa em Ellison sobre erros cometidos, levantando suspeitas de que o relacionamento dos dois podia estar ligado às fraudes cometidas – e o término também.

Um romance cheio de idas e vindas e peculiaridades acabou pesando sobre os negócios da Alameda e da FTX. Ainda no fim de 2022, Ellison assumiu a culpa por operações fraudulentas, mas dizendo que SBF sabia o que era feito.

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Aliás, uma das razões que levaram Sam de volta para a prisão foi a entrega para a imprensa de cartas escritas por Ellison, nas quais ela desabafava sobre a insegurança em liderar a Alameda e seu relacionamento desastroso com SBF.

Leia também: Por dentro dos diários de Caroline Ellison, a ex-executiva que virou peça-chave no julgamento do criador da FTX

Sam Bankman-Fried gosta de estar sob os holofotes, e mesmo preso ele segue chamando atenção. Depois de ser detido pela segunda vez, no mês passado, o executivo e sua defesa têm feito diversas reclamações sobre as condições na prisão, principalmente sobre o acesso à internet para ele se preparar para o julgamento.

Leia também: “Estou quebrado e sou uma das pessoas mais odiadas do mundo”, diz criador da FTX em carta

Mas uma das questões sobre sua reclusão envolve sua dieta, já que ele é vegano. Segundo seus advogados, não estavam sendo oferecidos alimentos que se encaixassem em sua dieta, obrigando SBF a se sustentar com pão, água e manteiga de amendoim.

“Apesar dos vários pedidos de uma dieta vegana, ele continua recebendo uma dieta carnívora”, disse Mark Cohen em uma audiência. O advogado também pediu ao juiz que desse a Bankman-Fried acesso a dois medicamentos que foram prescritos a ele: Adderall e Emsam, o primeiro para tratamento de Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e o segundo para depressão.

Mais recentemente, conforme documentos do processo da FTX estão sendo divulgados, foi descoberto que o pai de SBF, Joe Bankman, recebia um salário de US$ 200 mil por ano da divisão norte-americana da FTX. Na última semana a empresa entrou com um processo para reaver o dinheiro.

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Mas o mais curioso é que, em janeiro de 2022, Joe reclamou do valor e disse que deveria receber US$ 1 milhão por ano, segundo um e-mail divulgado nos documentos do processo da massa falida da corretora.

E o esforço deu certo. Nas semanas seguintes, SBF presenteou seus pais com US$ 10 milhões em fundos provenientes da Alameda. Em três meses, Bankman-Fried fez com que o casal recebesse a escritura de uma propriedade de US$ 16,4 milhões nas Bahamas, paga com fundos fornecidos pela FTX.

Outras histórias já foram apresentadas, mas nas próximas semanas, conforme o julgamento começar, a expectativa é que muito mais da vida pessoal de Bankman-Fried seja revelado.

O que esperar do julgamento

O julgamento de Sam Bankman-Fried começa em 3 de outubro e deve durar cerca de seis semanas, durante as quais os promotores devem convocar diversas pessoas do círculo próximo de Bankman-Fried, como sua ex-namorada Caroline, para depor, sendo que muitos deles já até se declararam culpados.

sam bankman fried prisão
fundador da FTX, Sam Bankman-Fried, fora do tribunal federal de Manhattan (Foto: Decrypt/André Beganski)

Um dos primeiros passos do processo será a formação de um júri, composto por entre 10 e 12 pessoas. Eles serão responsáveis por definir se SBF é culpado ou não de cada uma das acusações – sendo que a decisão precisa ser unânime.

Por conta disso, o Departamento de Justiça precisará mostrar sem nenhuma dúvida que o executivo é culpado e agiu de má fé, enquanto para a defesa bastará convencer um jurado de que não existem provas suficientes contra SBF.

Caso seja condenado, a sentença irá depender quase que exclusivamente do juiz do caso, Lewis Kaplan. Apesar de algumas leis definirem penas, elas são consideradas apenas como uma base, e o juiz terá poder para avaliar a gravidade de cada condenação e aplicar um pena pior, se achar necessário.

Se perder, Bankman-Fried terá o direito de apelar, enquanto em caso de sua vitória, o Departamento de Justiça dos EUA não poderá pedir recurso da decisão. De qualquer forma, esse é a apenas o primeiro passo, já que em 2024 deve ocorrer um novo julgamento sobre outras denúncias.

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