Sistema PIX do Banco Central é oportunidade para exchanges de bitcoin, diz especialista do NIC.br

Inclusão financeira no Brasil: cada pessoa com uma conta
(Foto: Shutterstock)


As exchanges, que vivem às turras com os bancos, poderiam se beneficiar das potenciais inovações do PIX, o futuro sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central? Para o engenheiro de computação Rubens Kühl, gerente de produtos e mercado do Registro.br [serviço de registro de domínios do NIC.br] a resposta é sim.

Segundo ele, há uma questão de velocidade que o PIX vai resolver ou diminuir, com a implementação dos pagamentos liquidados em até 10 segundos e no esquema 24×7 [24 horas por dia, 7 dias por semana]. Dessa forma, transações de cripto para moeda fiat e vice-versa também seriam beneficiadas.

“Acho uma oportunidade para as exchanges. Antes elas tinham um ativo muito dinâmico, que é a criptomoeda, só que a troca era por um ativo pouco dinâmico, que é uma transferência e que demorava para acontecer”, diz o engenheiro.

Por outro lado, Kühl não crê em uma vida mais fácil para as corretoras em relação aos bancos, por ainda haver um limbo de regulação.

Em entrevista ao Portal do Bitcoin, Kühl comenta ainda sobre outras questões e potencialidades do novo sistema, que é prometido pelo Banco Central para novembro.

Portal do Bitcoin – O PIX é citado como uma experiência inovadora, à frente até do que se vê em países desenvolvidos. Você concorda?

Rubens Kühl — Concordo. Aliás, o sistema bancário americano é bastante atrasado, o nosso já ultrapassou o deles na década de 70, quando vivíamos uma época de hiperinflação que forçou uma automação quase absoluta do setor bancário brasileiro. Desde então continuamos à frente.

Qual sua avaliação sobre o esforço do BC atualmente para implementar o PIX? O prazo até novembro é plausível?

Dado que é um lançamento limitado agora em novembro, acho que é plausível sim. O que eles querem lançar em novembro não é tudo o que foi anunciado na coletiva. É uma estratégia normal para áreas de produtos lançar o chamado MVP (sigla para Minimum Viable Product ou “Mínimo Produto Viável”). O BC está com essa estratégia, o que faz sentido.



[Eles do BC] Só não foram claros em falar que o que sai em novembro é um “MVP” só de transações, um identificador que é mais ou menos como operam hoje os cartões de débito.

Questões como boleto, tão comuns no Brasil, ficam para 2021?

Vai depender de cada negócio ver se consegue trabalhar com uma informação de identificação de cada transação, ou se ele precisa de informações agregadas. O que há de informações agregadas no boleto, por exemplo, são informações comerciais – data de vencimento, o que acontece em caso de atraso, etc. Esses dados ainda não entram nessa fase do PIX.

Para popularizar o PIX, o BC determinou a participação compulsória dos grandes bancos e fintechs no sistema. O que você pensa disso?

Acho válido, sem isso o sistema não ia conseguir entrar. Todo sistema de comunidade tem um problema de ovo e galinha. Ou seja, se eu criar uma rede social hoje, quantas pessoas vão querer entrar? Nenhuma, porque não vai ter ninguém lá. O único jeito de quebrar esse ciclo [no caso do setor financeiro] é por imposição regulatória, não tinha outro.

O Brasil tem uma população ainda à margem do sistema financeiro, desbancarizada. Como fica ela com a entrada em vigor do PIX?

O que vai permitir esse efeito [bancarização] é a existência de serviços gratuitos que as pessoas possam usar. Muitas pessoas não possuem renda mensal garantida, o que é um impeditivo para serviços financeiro. Mas conforme surgem serviços gratuitos e as pessoas vão descobrindo, a gente pode sim, ter uma bancarização até dessa camada mais à margem. E isso vai acontecer com ou sem PIX.

A diferença é que sem o PIX você teria o mesmo problema que aconteceu na telefonia celular. Antes, as pessoas ficavam tentando ficar na mesma operadora dos demais integrantes da família, em um efeito de rede. Isso porque a tarifa era alta de um operadora para outra, mas baixa entre números da mesma operadora. O que o PIX pode fazer é resolver esse problema do lado bancário.

o engenheiro de computação Rubens Kühl, gerente de produtos e mercado do Registro.br [serviço de registro de domínios do NIC.br]
Rubens Kühl, gerente de produtos e mercado do Registro.br (Foto: Divulgação)

Seria também uma forma de minar a concentração bancária que ainda hoje pauta o mercado?

Sim, inclusive porque algumas fintechs ainda preferem o cliente de alta renda, esse todos querem.

O BC criou um perfil no GitHub, no qual são compartilhados códigos abertos ligados ao PIX. O que você pensa dessa ação?

É legal! Os boletos bancários, por exemplo, surgiram com um padrão do Banco do Brasil, chamado CNAB. Desta vez o Banco Central tomou a iniciativa e ele mesmo criou um padrão, em vez de deixar isso para um outro banco.

Você vê alguma falha ou elemento no cronograma ou desenvolvimento do PIX que demande atenção?

Parece bem amarrado, porque na verdade ele se baseia em um serviço que já existe, que é o serviço de encontro de contas do Banco Central. É o serviço que os bancos usam até para não ficar tendo que fazer ligações de malha. Ele basicamente incrementa algo que já existe. Dada essa característica incremental e de implementar inicialmente um “MVP”, é algo bem factível de se fazer.

Ao centralizar o desenvolvimento e implementação do PIX, além de estipular um padrão para o sistema, que outra mensagem o BC dirige ao mercado, seja nacional ou internacional?

Parece uma mensagem de interoperalidade. Estamos vivendo hoje por causa da evolução da internet, que tem como núcleo a cultura da interoperalidade. Parece que o BC abraçou isso, porque quando colocamos coisas interoperáveis a gente consegue criar grandes sistemas, nos quais todos entram, podem criar em cima e fazer novas camadas. Já temos um experimento social que é a internet como prova de que isso funciona.

Para empresas ainda não reguladas pelo Banco Central, como as exchanges, o que representa o PIX? Pode ser visto como uma oportunidade ou mais uma barreira?

Acho uma oportunidade para as exchanges. Antes elas tinham um ativo muito dinâmico, que é a criptomoeda, só que a troca era por um ativo pouco dinâmico, e uma transferência que demorava.

Há uma questão de velocidade que, pra mim, parece que o PIX vai resolver ou diminuir. Porque no espaço de tempo de uma transação o valor de uma criptomoeda pode oscilar. Vejo como uma oportunidade nesse caso.

Já as as brigas das exchanges com os bancos vão continuar, porque se trata de uma questão regulatória, sobre quem pode ser uma instituição financeira ou não.

O presidente do BC citou as criptomoedas como indutoras do PIX e uma resposta do mercado financeiro à inovação que elas trouxeram. Você concorda com essa visão?

Não me parece. Me parece mais uma resposta ao mercado oligopolizado de cartões. Você tem nesse mercado hoje notória dificuldade de entrada, só ver o quanto a Elo está sofrendo para colocar uma bandeira nova num mercado dominado pela Mastercard e Visa. Eu acho que é mais um ataque a essa estrutura de mercado, altamente anticompetitiva, do que uma resposta ou ameaça às criptomoedas.


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