CBDC moeda digital banco central
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O número de projetos de moedas digitais estatais – conhecidas como Moeda Digital do Banco Central (CBDC, na sigla em inglês) está explodindo: 93% de todos os bancos centrais do mundo já possuem algum tipo de projeto de CBDC.

Os números são de um relatório do BIS – o chamado banco dos BCs – publicado neste mês de julho, que ainda projeta o pleno funcionamento de 15 CBDCs de varejo e nove sistemas estatais focados em instituições (atacado) até 2030.

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O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) conduziu uma pesquisa em 2022, cujos resultados foram publicados agora. Foram entrevistados 86 Bancos Centrais ao redor do mundo, sobre seus envolvimentos com CBDCs, projetos, motivações e intenções.

Leia também: BC poderá congelar contas e apreender ativos até na versão final do Real Digital

Sobre o sistema de Moeda Digital de Bancos Centrais, o relatório aponta para dois diferentes tipos de sistemas: (1) para varejo, que deverá ser utilizado pela maior parte da população; e (2) para atacado, que deverá ser utilizado por instituições financeiras — podendo, ou não, realizar o papel de intermediários e facilitadores para o varejo.

Consultado pelo Portal do Bitcoin, Matheus Cangussu, pesquisador de CBDCs e Head of Legal da LoopiPay, explicou a diferença entre uma CBDC de varejo e atacado.

“O CBDC de varejo é a emissão de moeda pública desmaterializada/virtual com o objetivo de circular entre a população em geral, de forma semelhante às notas do Real hoje em dia. Já o CBDC de atacado representa a moeda pública desmaterializada no ambiente interbancário.”

“Para entender os projetos de CBDCs desenvolvidos no mundo, primeiro é necessário entender o que é moeda pública (o CBC da sigla)”, diz Cangussu.

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“Moeda pública é toda moeda emitida pelo Banco Central, que representa uma obrigação deste. No Brasil e na maioria dos países do mundo, a moeda pública tem duas formas: o dinheiro físico (notas), que circula entre a população, e as contas detidas por instituições no Banco Central (como conta de reservas e conta de liquidação), acessíveis apenas a instituições autorizadas.”

Segundo o pesquisador, soluções financeiras de atacado já são utilizadas há décadas pelos Bancos Centrais ao redor do mundo; então não são uma novidade.

“A grande inovação das propostas atuais de CBDC de atacado não é digitalizar a moeda, pois ela já é digital neste ambiente, mas sim modernizar a infraestrutura sobre a qual é construída.” Disse Matheus ao ressaltar a possibilidade de melhorias como redução de custos e aumento da velocidade de liquidação com as novas tecnologias.

Ele afirma que, neste caso, a população não veria efeitos imediatos da aplicação tecnológica. Isse fator poderia trazer consequências positivas no médio e longo prazo, com o barateamento de serviços financeiros rodando em um sistema mais eficiente.

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Sistema brasileiro

80% dos entrevistados no estudo do BIS relataram enxergar valor em soluções direcionadas ao varejo e que permitam a criação de uma rede de pagamentos rápidos (como é o Pix no Brasil).

O presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, afirmou que o projeto do sistema brasileiro, o Real Digital, não possui o foco em pagamentos, já que o Pix já cumpre essa função.

“Para pagamentos diários ou transfronteiriços nós já temos o Pix”, disse Roberto Campos Neto. O sistema pode ser usado para pagamentos ponto a ponto no Brasil e também fora do país, como acontece em Orlando (EUA) e no Uruguai.

O executivo disse que vê a entidade pública do Banco Central como um “facilitador” do sistema financeiro. E deixa claro que seu objetivo é construir um sistema mais eficiente (palavra que é repetida diversas vezes em sua palestra).

No caso do Real Digital, o projeto se encontra na fase de “Prova de Conceito” (POC, no inglês), segundo o especialista Matheus Cangussu. “Com o Banco Central testando algumas teorias, protocolos e processos no âmbito do Piloto do Real Digital”, disse.

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No começo do mês de julho foi publicada a documentação do projeto-piloto, fornecendo à população uma ideia mais clara do que está por vir para a CBDC brasileira.

A CBDC brasileira possui um foco no atacado, conforme explica o Head of Legal da LoopiPay. Mas o Banco Central do Brasil também disponibilizará o Real Tokenizado, no qual, este sim, poderá ser usado diretamente pela população.

Panorama global das CBDCs

Apenas quatro bancos centrais do mundo já possuem sua solução de moeda digital estatal para o varejo em pleno funcionamento: Bahamas, Leste do Caribe, Jamaica e Nigéria.

Mas o Banco de Compensações Internacionais acredita que serão mais de 15 entidades centrais a oferecer uma rede funcional de CBDC para o varejo até 2030.

Consultado sobre a projeção acima, Cangussu afirma que não devemos interpretar a data como um marco temporal literal, mas como uma indicação de que as autoridades monetárias estão motivadas a emitir suas moedas digitais no curto e médio prazo.

Embora nenhuma nova moeda digital centralizada tenha sido lançada em 2022, a pesquisa do BIS indica que 18% dos bancos centrais provavelmente emitirão um CBDC de varejo no curto prazo.

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Vários bancos centrais publicaram resultados de seus experimentos com CBDC, incluindo: Banco Central da Suécia, o Federal Reserve Bank de Nova York, o Reserve Bank da Austrália, o Banco Central da Malásia, a Autoridade Monetária de Cingapura e o Reserve Bank da África do Sul são alguns, segundo relatório do BIS.

Além disso, nos últimos meses, o Central Reserve Bank do Peru, a Autoridade Monetária de Hong Kong, o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Canadá lançaram consultas ou publicaram relatórios de progresso, detalhando vários aspectos de possíveis versões digitais de suas moedas locais.

No site CBDC Tracker é possível visualizar um mapa atualizado em tempo real sobre as fases que se encontram cada diferente projeto de moeda digital estatal entre todos os bancos centrais do mundo.

Mapa com o estado de cada projeto de CBDC dos bancos centrais ao redor do mundo.
(CBDC Tracker)

Nove em cada 10 bancos centrais consultados pelo BIS afirmam que possuem parceiros e stakeholders terceiros envolvidos no desenvolvimento de seus projetos.

Alguns especialistas também teorizam sobre as aplicações das CBDCs de atacado para operações de câmbio, mas o pesquisador de CBDC Matheus Cangussu acredita que estas aplicações são afetadas por fatores externos.

“Apesar da tecnologia ser promissora, como diversos pilotos e projetos demonstram. Como a relação se daria a nível de bancos centrais, este objetivo depende também de negociações entre os países”, disse Matheus. “Então não podemos afirmar com certeza quais seriam os resultados da implementação de CBDC para o mercado de câmbio no curto prazo.”

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