Bitcoin é um filho rebelde do neoliberalismo, diz pesquisador marxista

Sociólogo Edemilson Paraná, da Universidade Federal do Ceará, diz que criptomoeda nasceu de uma revolta contra o establishment

O sociólogo Edemilson Paraná, autor do livro
O sociólogo Edemilson Paraná, autor do livro "Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico". (Foto: Arquivo pessoal)


Uma crítica social inovadora, mas ao mesmo tempo uma utopia econômica e social que nega a existência do Estado. É como Edemilson Paraná, professor de Sociologia Econômica e do Trabalho da Universidade Federal do Ceará (UFC), enxerga o Bitcoin.

Partindo um ponto de vista marxista, algo raro num meio marcado pela visão ultraliberal, ele viu no Bitcoin uma crítica ao establishment econômico e uma proposta de modelo alternativo: “Uma utopia do livre-mercadismo radical, mas ainda assim uma utopia, diz.

Como resultado das pesquisas sobre digitalização da economia, Paraná escreveu o livro “Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico” (ed. Autonomia Literária), no qual aborda a criptomoeda como um experimento social. Leia abaixo a entrevista:

Portal do Bitcoin: De onde surgiu o interesse em estudar o Bitcoin e outras criptomoedas sob uma ótica marxista?Edemilson Paraná: O bitcoin é um experimento social em tempo real sobre os limites e as possibilidades do dinheiro no capitalismo e sobre a transformações pelas quais ele vem passando nos últimos anos.

Apesar disso, a maior parte da literatura sobre o assunto, tende à ingenuidade teórica e política ou então a um celebracionismo tecnológico com tons de propaganda. Por isso era fundamental abordar o assunto desde uma lente crítica, que não é comum, eu sei, mas que é bastante necessária para entendermos a realidade desse “fenômeno”.

A atual crise econômica e a digitalização crescente da economia tendem a popularizar o bitcoin?
Lembremos que o bitcoin é um produto da crise de 2008. Então, sim, pode haver agora um aumento de interesse pelo assunto. Por outro lado, crises são momentos em que ocorre a chamada “fuga para a segurança”, quando os agentes econômicos buscam opções mais sólidas, seguras e previsíveis de riqueza.

Mas dada sua natureza economicamente volátil e politicamente instável do bitcoin, ele é oposto do “porto seguro” desejado pela maioria das pessoas neste momento. Do ponto de vista econômico, a crise servirá para afirmar o status restrito do bitcoin como ativo especulativo de risco e não muito mais do que isso.



Se falamos de seu legado político, de sua herança tecnológica e organizativa, é mais difícil prever – e aqui é onde eu acho que talvez ele seja mais promissor. Apesar de não ser essa invenção monetária revolucionária que irá por si mesma pôr abaixo ou substituir o sistema monetário estatal, as criptomoedas já fazem parte da economia capitalista contemporânea, cumprem uma função social e econômica no interior dela, e, portanto, parecem ter vindo para ficar.

O bitcoin deveria ser regulado? 
É curioso observar como um espaço que nasce justamente para denunciar a gestão regulatória do Estado no campo monetário, e que justifica sua existência precisamente por se colocar como um alternativa a ele, contra ele, acaba tendo de buscar sua chancela para existir e se desenvolver. É mais um indício de que, no capitalismo, não existe mercado sem Estado, nem Estado sem mercado.

Por que o bitcoin seria algo paradoxal?
O bitcoin pretende se livrar da “confiança” na gestão monetária, mas opera ele mesmo com base em uma comunidade que gira em torno de certos valores, crenças e visões de mundo, na qual a confiança (no código, nos integrantes da comunidade, nas ideias que comungam, nos fóruns etc) se faz necessária para amparar o sistema.

Esse paradoxo se estende ao seu próprio funcionamento técnico-operacional. Apesar de estruturar sua rede e protocolos para um processamento descentralizado e colaborativo, o código do bitcoin é, na verdade, controlado por um grupo bastante restrito de experts. Então, apesar de ser um projeto de código aberto, o desenvolvimento e a manutenção do código bitcoin dependem de um núcleo relativamente pequeno de desenvolvedores altamente qualificados que desempenham um papel fundamental no design da plataforma. Ou seja, apesar de ser nitidamente um processo social, o bitcoin busca negar justamente aquilo que o constitui de modo mais intrínseco: seu caráter social e relacional.

Mas entre os apoiadores do bitcoin há muitas pessoas que são contrárias à ideia de Estado, por exemplo. Faz sentido falar em bitcoin como algo apolítico?
Quando defino o bitcoin como “a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico”, não estou me referindo a uma falta de posicionamento. Falo da tentativa, cravada no código e na concepção do sistema, de tirar a decisão política da gestão monetária, o que é algo inviável no capitalismo.

Basta observarmos o que está acontecendo na crise atual: a “política” que se buscou, nos anos anteriores, submeter à esfera supostamente técnica e neutra do mercado, volta com tudo. O mercado é ele mesmo uma instituição social enraizada em ideais, crenças, valores e práticas políticas. Então a busca pela substituição da política pela tecnologia é, ela mesma, uma forma de política: o governo da técnica.

O bitcoin surgiu num contexto da crise de 2008, em meio a uma desconfiança crescente sobre o setor financeiro. O você vê o bitcoin como uma crítica social válida, nesse sentido?
Foi uma das coisas que mais me chamou a atenção no bitcoin, e que me motivou a estudá-lo. Há nele um conteúdo ao mesmo tempo crítico do establishment econômico e utópico, na medida em que projeta um modelo alternativo de economia. Uma utopia do livre-mercadismo radical, mas ainda assim uma utopia. E mais, uma utopia não apenas discursiva, mas prática, construtiva e inventiva, que vem produzindo coisas muito interessantes e, não por acaso, capturou muitos jovens “rebeldes”, cheios de energia transformadora. É um fenômeno que, a seu modo, dialoga diretamente com as sensibilidades e humores característicos da conjuntura política que se abre a partir da crise de 2008.

O mais intrigante é que essa “revolta” se materializa não à esquerda, mas à direita ultraliberal, exacerbando as visões que amparam o próprio establishment que se busca atacar – um mundo construído, nas últimas cinco décadas, sobre o discurso da impertinência e ineficiência econômica e social do Estado e sobre a prática da desregulamentação, privatização, liberalização etc. Sob esse ponto de vista, o bitcoin é um fenômeno absolutamente fascinante, bastante elucidativo da dinâmica ideológica que marca a atual fase de crise, em que a única alternativa posta de fato ao capitalismo parece ser sua própria “radicalização”.

Tal rebeldia pode se voltar contra o próprio sistema capitalista?
O radicalismo “libertário” que sustenta ideologicamente o bitcoin ganha terreno ao exigir que o neoliberalismo cumpra suas promessas de promoção da competição generalizada em prol da “inovação”, defesa intransigente da propriedade individual, mercantilização, privatização e individualização.

Contraditoriamente, nesse campo específico, essa agenda aparece como radical, inclusive para aqueles neoliberais sentados em posição de comando: políticos, autoridades, governantes e, é claro, financistas de todos os matizes – esse establishment neoliberal que o libertarianismo pretende, de “bom coração”, atacar. Daí o bitcoin ser um filho “rebelde”, inesperado e um tanto perturbador do próprio neoliberalismo. Então, nessa sua contradição meio “monstruosa”, o bitcoin é, ao mesmo tempo, um indício da força e da fraqueza que constitui o regime neoliberal.

Como você analisa a questão da necessidade de stablecoins baseadas em dólar, como a Tether?
São uma tentativa de se corrigir o problema da alta volatilidade típica das criptomoedas. Essa volatilidade é uma das razões fundamentais pelas quais o bitcoin não pode substituir o dinheiro estatal nas transações cotidianas de consumidores. As stablecoins são, a meu ver, uma tentativa de corrigir um problema que é, na verdade, congênito. As criptomoedas não são instáveis apenas por não terem um “lastro” em ativos fixos reais (como ouro ou qualquer coisa do tipo) ou em outros instrumentos financeiros e moedas, mas porque não tem “lastro” (melhor seria dizer amparo) em nenhum poder econômico e político-regulatório significativo. O dinheiro não é um “coisa”, mas uma relação social, perpassada por dinâmicas de poder social.

Como a demanda por criptos não é transacional, mas especulativa, acabamos, então, em uma posição curiosa: se as criptos não forem estabilizadas terão dificuldade para se tornar mainstream, mas caso se tornem estáveis perderão parte considerável daquilo que as fazem atrativas como opção de “investimento”.