Francisley Valdevino da Silva, apelidado de “Sheik das criptomoedas”
Sheik das criptomoedas em festa à fantasia (Foto: Reprodução)

Francisley Valdevino da Silva, apelidado de “Sheik das criptomoedas”, movimentou pelo menos R$ 4 milhões em bitcoin para corretoras após ter bloqueado os saques da Rental Coins, pirâmide financeira criada por ele que deixou no prejuízo milhares de brasileiros, incluindo celebridades como Sasha Meneghel, que sozinha perdeu R$ 1,2 milhão no golpe.

Após a Polícia Federal desarticular na quinta-feira (6) a quadrilha de Francisley, acusada de movimentar mais de R$ 4 bilhões de origem ilícita, uma carteira de bitcoin supostamente sob o controle de Francisley e seu conglomerado de empresas Interag — o que além da Rental Coins, inclui Intergalaxy, Intertradec e Compralo — foi enviada para o Portal do Bitcoin pelo advogado Pedro Torres, que atende vítimas do esquema.

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A carteira 182q…tmf apontada por ele como pertencente a Rental Coins movimentou cerca de 41,5 bitcoin, uma quantia que equivale a R$ 4,2 milhões na atual cotação da criptomoeda, segundo apuração desta reportagem.

As transações dessa carteira começaram em fevereiro, mês que explodiu o número de reclamações no Reclame Aqui de clientes que apontaram o calote da Rental Coins. A entrada e saída de bitcoin continuou até julho, quando a carteira foi esvaziada.

“Está confirmado que os endereços, de fato, são da empresa investigada. Um importante elemento do modus operandi do grupo era a difusão de agências Brasil afora, capitaneadas pelos ‘franqueados’, indivíduos que foram contratados para atuar como captadores de vítimas para o esquema e que ajudavam a dar uma aparente roupagem de legitimidade ao esquema”, afirma o advogado.

Ele relata que essa posição de liderança dos “franqueados” lhes deu acesso a informações privilegiadas sobre a operação da Rental Coins, como esse endereço de bitcoin. “Ademais, em conversas diretas com os representantes da empresa em sede de tratativas de acordo [em Curitiba], pude confirmar a veracidade das informações”, diz Torres.

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Rastreando o dinheiro na blockchain

Ao analisar as movimentações dessa carteira na blockchian, foi possível identificar pelo menos 13 empresas do ramo de criptomoedas que foram destino de parte do dinheiro da Rental Coins. Os nomes das empresas detentoras dos endereços de destino foram apontados na plataforma de análise da Chainalysis.

Foram seis corretoras estrangeiras – mas com atuação no Brasil – que receberam os valores, incluindo Binance, Coinbase, Huobi, Crypto.com, ProBit e ChangeNOW. Fundos também foram enviados para três empresas brasileiras: Novadax, BitPreço e Alter (adquirida pela Méliuz). Os serviços CoinPayments, BitPay, GiftOff e Namecheap também interagiram com a carteira. 

Desse grupo de empresas, a Binance foi a mais utilizada, com 62 transações com o endereço da Rental Coins entre os dias 22 de fevereiro e 14 de junho. A estimativa é que a corretora tenha sido o destino de 9.39 BTC do golpista, cerca de R$ 957,7 mil. A Binance também foi a origem de 1.16 BTC (R$ 118 mil) que passou pela carteira.  

A Coinbase aparece como o segundo maior destino de bitcoin da carteira da Rental Coins, recebendo 0.43 BTC, cerca de R$ 43,8 mil, seguida por ChanceNOW (0.25 BTC) e BitPreço (0.24 BTC). As outras empresas citadas receberam valores menores.

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Na visão do advogado Pedro Torres, há grandes chances do bitcoin movido nesta carteira da Rental Coins ser dinheiro das vítimas da empresa – isso sem levar em consideração valores em outras carteiras, que seguem desconhecidas.

“Os valores, as datas das movimentações, bem como sua padronização, denotam que os ativos digitais movimentados são advindos de valores aportados pelos clientes que foram lesados.”

Indícios de fraude

Além das movimentações citadas anteriormente, a Rental Coins fez transações de forma indireta — ou seja, espalhando o bitcoin em outros endereços antes de chegar ao destino final — de cerca de 30.8 BTC para corretoras, serviços de mixing e outras carteiras desconhecidas. 

Na análise de interações indiretas da carteira da Rental Coins, a Binance também aparece na liderança, recebendo 20,6 BTC (R$ 2,1 milhões) da carteira. 

Movimentações da carteira da Rental Coins na blockchain do bitcoin (Fonte: Portal do Bitcoin/Breadcrumbs)

Outras 40 empresas que oferecem serviços relacionados a criptomoedas aparecem na lista de interações. Alguns nomes chamam atenção, não pelas quantias enviadas, mas pelos indícios de fraude dessas empresas.

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A Rental Coins, por exemplo, aparece recebendo de forma indireta 0.030 BTC (pouco mais de R$ 3 mil) de uma carteira da Mining Express, uma suposta empresa de mineração criada por Kaze Fuziyama, um promovedor de pirâmides no Brasil que virou manchete após ser homenageado na Câmara Municipal do Rio

A Mining Express foi investigada em 2020 pela CVM por prometer lucros a investidores, além de ter sido alvo de ação das autoridades da Ucrânia, onde estava baseada até o final do ano passado. 

Outra interação que chama atenção da carteira da Rental Coins é um recebimento indireto de uma pequena quantia de bitcoin de uma carteira ligada a Flugsvamp Market, um mercado de drogas da darknet baseado na Suécia. A Rental Coins também recebeu indiretamente 2.05 BTC (R$ 209 mil) de uma carteira da Wasabi Wallet, serviço de mixing de bitcoin usado para esconder os rastros das moedas na blockchain.

Por fim, também foi possível identificar que a carteira da Rental Coins enviou de forma indireta R$ 47 mil em bitcoin para dois scams de criptomoedas: FXSmartChainTrade e MetaFi Yielders.

O golpe do Sheik das criptomoedas

Os esquemas de Francisley Valdevino da Silva foram alvos da Operação Poyais da Polícia Federal nesta semana, que cumpriu 20 mandados de busca e apreensão contra o empresário de Curitiba.

O “Sheik das criptomoedas” é acusado de organizar um esquema multimilionário e internacional de lavagem de dinheiro, usando criptomoedas como chamariz.

Segundo a PF, Francisley enganou milhares de vítimas que acreditavam nos serviços prometidos através de suas empresas, os quais consistiam no “aluguel de criptoativos” com pagamento de remunerações mensais que poderiam alcançar até 20% do capital investido.

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As investigações apontaram que a organização criminosa movimentou cerca de R$ 4 bilhões pelo sistema bancário oficial do Brasil, um valor que não leva em consideração as movimentações com criptomoedas.

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