Imagem da matéria: Como a Rússia pode usar criptomoedas para evitar sanções internacionais
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Esta semana a Rússia invadiu a Ucrânia, no que o presidente Vladimir Putin descreveu como uma “operação militar especial”.

A resposta internacional foi rápida pois, agora, a Rússia enfrenta amplas e rígidas sanções.

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A União Europeia impôs sanções visando os “interesses do Kremlin” enquanto o presidente americano Joe Biden denunciou a invasão como um “ataque premeditado”, anunciando uma onda de sanções a empresas estatais e bancos russos.

A Alemanha congelou a aprovação do projeto de gasoduto Nord Stream 2, criado para aumentar o fluxo de gás russo ao continente europeu. O Reino Unido também impôs “sanções de punição”, que irão “devastar a economia da Rússia e visar o círculo interno de Vladimir Putin”.

Até agora, a comunidade internacional se absteve da demanda do Reino Unido de barrar a Rússia da rede de pagamentos internacional SWIFT.

Mas o bitcoin (BTC) e outras criptomoedas podem fornecer ao presidente Putin um meio de evadir sanções internacionais e seus custos financeiros inerentes.

“Tal como acontece no sistema financeiro tradicional, a Rússia pode alavancar criptomoedas para evadir as sanções que estão sendo implementadas em resposta à sua invasão à Ucrânia”, disse Caroline Malcolm, líder de políticas internacionais da empresa de análise em blockchain Chainalysis, ao Decrypt.

Mas ela acrescentou que cripto não fornece à Rússia uma solução mágica para a evasão de sanções: “Assim como no sistema financeiro tradicional, o ecossistema de criptomoedas pode implementar medidas para identificar transações de entidades sancionadas identificadas”.

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Cripto “prejudica” sanções dos EUA

Em outubro de 2021, a administração Biden alertou que criptomoedas, descritas como “ativos digitais” pelo Departamento do Tesouro, podem prejudicar o amplo regime de sanções dos Estados Unidos.

“Essas tecnologias oferecem oportunidades para que agentes malignos armazenem e transfiram fundos fora do sistema financeiro tradicional.

Também dão autonomia para que nossos adversários continuem desenvolvendo novos sistemas financeiros e de pagamento para minimizar o papel global do dólar”, afirmou o Departamento do Tesouro em um relatório.

Supostamente, o Estado-pária da Coreia do Norte financiou parcialmente seus programas nucleares e de mísseis balísticos usando criptomoedas, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ou ONU, na sigla em português).

Inúmeros países, incluindo os EUA, Japão, Austrália e Reino Unido, impuseram sanções à Coreia do Norte que, por sua vez, fez hackers roubarem mais de US$ 400 milhões em criptomoedas de corretoras.

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A Coreia do Norte também possui um programa ativo de mineração cripto, incluindo bitcoin e a criptomoeda de privacidade monero (XMR).

Em 2018, empresas no Irã conseguiram usar bitcoin e outras criptomoedas para evadir sanções impostas pelo ex-presidente americano Donald Trump.

“Escolhemos cripto porque sanções não podem bloquear os pagamentos por acomodação feitos por nossos clientes”, disse um agente de viagem iraniano ao Decrypt na época.

Ransomware

Ransomware é um tipo de software malicioso, criado para suspender um computador ou uma rede até o pagamento ser recebido, geralmente em bitcoin ou monero.

Um dos principais métodos que a Rússia pode usar para evadir sanções é por meio de ataques de ransomware – uma indústria já repleta de atividades russas.

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Um relatório recente da Chainalysis descobriu que pessoas e grupos na Rússia (alguns que já foram sancionados pelos Estados Unidos) correspondem a uma “participação desproporcional” de crimes relacionados a criptomoedas.

Um exemplo é ransomware. A pesquisa da Chainalysis demonstra que quase 3/4 (ou 74%) da receita global de fontes que financiaram ransomware em 2021 “muito provavelmente estava afiliada à Rússia”.

A Rússia também é o lar de diversas empresas cripto que processam um “volume significativo de transações” de fontes ilícitas. O arranha-céu Vostok, em Moscou (o maior prédio da Rússia) é um grande lar para cibercrimes.

Mas na linha de frente do ransomware russo está o grupo de cibercrimes afiliado à Rússia chamado REvil.

Este ano, o serviço nacional de inteligência da Rússia, o Serviço Federal de Segurança (ou FSB, na sigla em russo), afirmou ter desfeito o grupo de ransomware REvil a pedido dos Estados Unidos.

O anúncio foi recebido com ceticismo na época, reiterado por Crane Hassold, ex-agente do Departamento Federal de Investigações (ou FBI), em entrevista ao Decrypt.

“Não se sabe quem foi realmente preso”, disse Hassold. “Eram apenas afiliados ou eram os principais agentes? Eu não acho que saibamos nada disso.”

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Criptomoedas são o “principal elemento” que move o atual ambiente de ransomware, acrescentou ele. “Basicamente autoriza que pagamentos de ransomware vistos anteriormente escalem para números que são bastante insanos.”

Mineração de bitcoin

A indústria russa de ransomware com cripto já é bastante evidente, mas uma segunda fonte de renda relacionada a cripto (a mineração de bitcoin) também está sendo visada pelo presidente Putin.

Em janeiro, o presidente disse que a Rússia possui “vantagens competitivas” na mineração de bitcoin, fazendo referência ao “superávit de eletricidade e equipe bem-treinada” do país.

Por enquanto, a assertividade de Putin parece ter sido confirmada; a mineração de bitcoin na Rússia continua, sem interrupções.

“Grande parte da mineração russa de bitcoin é movida por gás natural nacional ou [energia hidrelétrica] na Sibéria”, disse Will Foxley, diretor de conteúdo da Compass Mining, ao Decrypt.

“É improvável que o poder de hashes seja desligado, a menos que sanções influenciem fornecedores de pools.”

Whit Gibbs, cofundador e CEO da Compass Mining, tuitou:

Eu sempre fico muito sensibilizado com o que acontece no Leste Europeu – a Letônia é meu lar. Meus pensamentos e preces vão para todos os afetados por esse conflito. Espero que vejamos uma resolução pacífica em breve.

Quero tranquilizar nossos clientes que hospedam [máquinas de mineração] na Rússia que estamos em comunicação constante com as instalações, que estão na Sibéria e bem isoladas de qualquer inquietação geopolítica.

A Compass confirmou com nossos parceiros de que todas as máquinas estão seguras e vão continuar funcionando normalmente.

Até agora, não se sabe se o Estado russo comprou bitcoins, mas o governo está de olho na criptomoeda como um meio de evitar sanções desde 2019.

O que pode ser feito?

Existem formas de combater o uso de criptomoedas na evasão de sanções.

Malcolm, da Chainalysis, disse ao Decrypt que os EUA e outros governos sancionadores pelo mundo podem investir em análise em blockchain para “ficar à frente de iniciativas russas” de evasão de sanções usando criptomoedas.

“A transparência da blockchain combinada com essas ferramentas podem ser uma estratégia poderosa para garantir que sanções continuem sendo um empecilho crível”, disse ela.

Enquanto isso, o relatório de sanções do Departamento do Tesouro dos EUA fez duas recomendações para garantir que o regime de sanções do país evolua junto com o advento das criptomoedas.

Primeiro, o relatório argumenta a favor de sanções que sejam facilmente compreendidas, aplicáveis e adaptáveis.

“O Tesouro pode aproveitar capacidades existentes de alcance e engajamento por meio de uma melhor comunicação com a indústria, instituições financeiras, aliados, a sociedade civil e a imprensa, bem como novos grupos constituintes, principalmente no setor de ativos digitais”, afirmou o relatório.

O relatório também pediu que o Tesouro investisse no “aprofundamento de seu conhecimento e suas capacidades institucionais no setor de ativos digitais e serviços em evolução para apoiar a completa vida útil de atividades de sanções”.

*Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento com autorização do Decrypt.co.

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