Imagem da matéria: Trust Investing opera mina de esmeraldas na mesma rua da pirâmide financeira G44 Brasil
Foto: Shutterstock

Na pacata cidade de 5 mil habitantes chamada Campos Verdes, no interior de Goiás, há uma rua que concentra minas de esmeraldas de duas empresas suspeitas de montar pirâmides financeiras com criptomoedas que deixaram prejuízos para milhares de brasileiros: Trust Investing e G44 Brasil, segundo apuração do Portal do Bitcoin

O que ambas têm em comum, além do uso de criptomoedas, é a atuação no ramo de mineração de pedras preciosas. É isso que explica a presença de ambas na Rua do Netinho, em Campos Verdes.

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É comum que promotores de esquemas financeiros usem metais ou pedras preciosas como uma suposta garantia de solidez de seus negócios. Francisley Valdevino da Silva, dono da Rental Coins e conhecido como o Sheik do Bitcoin, por exemplo, é acusado de usar baús com barras de ouro para atrair investidores. A Trust também usa as esmeraldas em seus vídeos de divulgação como uma demonstração de “seriedade” dos projetos da empresa.

Embora a Trust Investing nunca tenha fornecido a seus clientes detalhes sobre os registros de sua mina de esmeraldas, sequer sua localização, vídeos promocionais deram pistas de que a mina estava localizada ao lado da G44 Mineração, como mostra as imagens abaixo:

Imagem da suposta mina de mineração da Trust Investing. Ao lado, é possível ver o prédio da G44 Mineração.
Imagem de satélite que mostra que a suposta mina da Trust Investing ao lado da G44 Mineração.

Ao consultar o banco de dados de registros da Agência Nacional de Mineração (ANM), foi possível checar os responsáveis legais pelas áreas em questão. 

No caso das minas da G44 Brasil, a titular da licença necessária para extração de minério naquela região é Joselita de Brito Escobar.

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Ao lado de Saleem Ahmed Zaheer, Joselita é sócia da G44 Mineração, empresa que é um braço dos negócios da G44 Brasil, uma suposta pirâmide financeira que usava criptomoedas e pedras preciosas para vender pacotes de investimentos e prometer rendimentos irreais aos clientes — um negócio que se assemelha às denúncias feitas contra a Trust Investing, empresa que não paga os clientes há oito meses.

Quando a G44 passou a dar calotes em clientes, a Polícia Civil, o Ministério Público e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), passaram a investigá-la. Na época, a CVM chegou a aplicar uma multa de R$ 750 mil contra a G44 por continuar fazendo a oferta irregular de investimentos após sofrer um stop order da autarquia.

Cerca de 30 mil brasileiros ficaram no prejuízo e no final de 2020, quando o caso explodiu, já haviam mais de 400 ações contra a empresa tramitando na Justiça de Goiás. Atualmente, a mina de esmeraldas da G44 em Campos Verdes está bloqueada judicialmente, por uma ordem emitida desde novembro de 2020.

Mina de esmeraldas da Trust Investing

Já a mina de esmeraldas da Trust Investing está localizada bem ao lado da G44 Mineração, terreno de 1,94 hectares no qual a licença da ANM para a lavra garimpeira de esmeraldas foi fornecida em 1991, para um homem chamado Thomaz Zuzarte Adorno Neto. Em 22 de junho de 2021, a licença foi transferida para Diorge Roberto de Araujo Chaves, pai do CEO da Trust Investing, Diego Chaves.

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A mina de esmeraldas, assim como as operações da Trust Investing, está repleta de mistérios. Os líderes da empresa nunca divulgaram os registros da mina. Também causa estranheza estar registrada em nome do pai de Chaves, e não junto aos donos da empresa.

O pin azul sinaliza o registro da mina da G44 e o verde, da Trust Investing (Fonte: Agência Nacional de Mineração)

Em fevereiro deste ano, Patrick Abrahão — marido da cantora Perlla e um dos principais promotores da empresa, responsável por atrair milhares de brasileiros para o esquema — publicou um vídeo no seu canal de YouTube onde visita a mina para mostrar sua suposta legitimidade.

“Espero que através desse vídeo você consiga ver como nosso projeto é sério, como é sustentável e quanto nós temos para crescer ainda”, diz Abrahão no vídeo, onde é acompanhado por Cláudio Barbosa, um dos diretores da Trust Investing que foi preso em Dourados (MS).

Junto com ele, também foi preso na ocasião o diretor de marketing da Trust Investing, Fabiano Lorite de Lima, que assim como Cláudio, não pode mais sair do Brasil após ter o passaporte confiscado pela Polícia Federal para evitar a fuga do país. 

Em dezembro de 2021, Lorite tentou, sem sucesso, conseguir de volta seu passaporte para fazer uma suposta viagem de negócios para a Espanha. O pedido foi negado em duas instâncias após intervenção do Ministério Público, que levantou suspeitas sobre as operações dos líderes da Trust Investing.

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Em sua decisão, o juiz aponta suspeitas de que a viagem poderia servir para atividades em conexão com máfias localizadas na Espanha.

Práticas suspeitas da Trust Investing

As operações da Trust Investing no ramo da extração de pedras preciosas vieram à tona no ano passado, quando seus fundadores foram presos em flagrante.

Na época, o Ministério Público pediu a prisão preventiva da dupla que, no momento da prisão, estava desacompanhada do terceiro fundador e CEO da Trust Investing, Diego Chaves. 

O pedido foi feito devido a uma série de suspeitas de irregularidades nas operações da empresa e que ficaram claras nos interrogatórios fornecidos por Fabiano e Cláudio.

No momento da prisão, eles alegaram que as esmeraldas que portavam no momento da prisão eram supostamente da Victory, uma empresa da dupla que o Ministério Público acusa ser “de fachada”.

“Da simples leitura do depoimento prestado por um dos investigados, denota-se alguns pontos indicativos de que a empresa VICTORY é uma empresa de fachada ou, ainda, uma empresa fantasma, havendo, ademais, suspeitas de que o próprio Cláudio Barbosa seja um “testa-de-ferro” — já que sequer sabe o endereço de sua empresa”, denunciou o Ministério Público.

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O MP também ressaltou que eles não sabiam o nome do responsável administrativo pela empresa, nem foram capazes de explicar elementos simples sobre a negociação das esmeraldas.

Ao analisar a presença da empresa na internet, as suspeitas já assinaladas pelas autoridades ganham ainda mais força. O próprio site da Victory não passa de uma tela branca estática com o logo da empresa, sem qualquer outra informação. 

Ao checar o CNPJ da Victory, é possível constatar que ela foi aberta por Cláudio Barbosa em dezembro de 2020, uma vez que foi seu e-mail e possível o número de telefone cadastrado como o contato da empresa.

O que a Victory informa ser sua atividade principal é o comércio atacadista de jóias. Nas atividades secundárias está a lapidação de gemas, fabricação de artefatos de joalheria e comércio de produtos da extração mineral.

Vale ressaltar que entre as atividades econômicas listadas no cadastro da empresa, não há nada que remeta à extração legal de minério da União — algo que exige licença da Agência Nacional de Mineração (ANM).

Além disso, quando Cláudio e Fabiano foram presos em flagrante portando meio milhão em esmeraldas, eles não foram capazes de apresentar à Polícia Federal a concessão de lavra ou guia de utilização emitida pela ANM.

Visita política

Os líderes da Trust Investing tentam passar legitimidade ao negócio através da Victory e mostrando conexões políticas, como aconteceu no final de junho, durante a 7ª Feira Internacional das esmeraldas em Campos Verdes.

Durante o evento, o prefeito do município, Haroldo Neves, levou o secretário da Indústria e Comércio de Goiás, Joel Sant’Anna Braga Filho, para visitar uma mina de esmeraldas da cidade. A mina escolhida foi a da Victory.

Em fotos publicadas no Instagram do prefeito, é possível ver que o CEO da Trust Investing, Diego Chaves, estava no local guiando os políticos na visita. Os outros dois fundadores da Trust que foram presos em flagrante com pedras preciosas não estavam presentes naquele dia.

CEO da Trust Investing, Diego Chaves (esquerda), ao lado do secretário de comércio de Goiás, Joel Sant’Anna Braga Filho (centro) e o prefeito de Campos Verdes, Haroldo Neves (direita).

Chaves é o líder número 1 da Trust Investing. Foi ele quem ameaçou e chamou para “guerra” os clientes da sua própria empresa que o acusava de aplicar um golpe ao impedir — e continuar impedindo —  que saques fossem feitos na plataforma.

O Portal do Bitcoin entrou em contato com a prefeitura de Campos Verdes para questionar qual local havia sido visitado naquele dia, e a secretária de administração confirmou se tratar da mina da Victory. 

Ela não soube informar se a Victory tinha licença da ANM para extrair esmeraldas na região, já que esta é uma fiscalização federal, nem se atua no local em parceria com outra empresa legalizada. Confirmou, no entanto, que no local da mina há apenas os logos da Victory nas placas de identificação. A secretária também confirmou que a mina estava localizada na Rua do Netinho.

A entrada da Trust Investing no ramo de pedras preciosas

A entrada da Trust Investing no ramo das pedras preciosas vem sendo usada pela empresa na promoção do seu principal pacote de investimentos em criptomoedas, o “Trust Diamond”.

Fabiano Lorite, diretor de marketing da empresa que também foi preso em flagrante no ano passado, explica em um vídeo promocional que o intuito de entrar no ramo de pedras preciosas surgiu para dar um aspecto “tangível” para o trade de criptomoedas.

Para fazer isso, ele conta que a Trust firmou uma parceria com uma suposta “grande empresa de mineração” que Fabiano afirma ter mais de 126 licenças de minas de diamante, esmeralda e rubi, mas a qual não revela o nome.

“Nós vamos ajudar investindo neles para que produzam mais, e damos ao nosso investidor a chance de triplicar o seu capital em 12 meses”, promete Fabiano no vídeo. 

Ele diz que as pedras preciosas serviriam como garantia caso a Trust Investing não cumprisse seu contrato e deixasse de pagar os clientes — o que de fato aconteceu.

O que não aconteceu, entretanto, foi a promessa que Fabiano fez de que as esmeraldas preciosas seriam leiloadas e os lucros distribuídos aos clientes afetados em caso de calote.

No Brasil, os clientes que expuseram o calote da empresa em maio ao Portal do Bitcoin,  foram novamente consultados no início de agosto, e afirmam que ainda não foram pagos. 

Outros países que possuem um grande número de vítimas da Trust Investing são Cuba e Espanha. Com o dinheiro preso na empresa, as vítimas de países hispânicos tentam encontrar uma saída se organizando em grupos do Telegram, alguns com mais de 750 investidores.

No vídeo em que Fabiano Lorite apresenta o pacote Trust Diamond, ele afirma que as pedras preciosas da empresa são custodiadas em um banco na Suíça – mas ele não apresenta nenhum detalhe sobre a custodiante, nem ao menos seu nome.

Negócios “fantasmas”

Um local onde é possível confirmar que essas esmeraldas já foram custodiadas foi o cofre pessoal de Fabiano Lorite na suposta sede em São Paulo do BDL Bank, um banco digital da Trust Investing que prometia “facilitar o dia a dia do empreendedor brasileiro”.

Isso está exposto em uma visita na sede da empresa, gravada por Patrick Abrahão. No vídeo, ele apresenta o escritório do BDL Bank para mostrar a sua suposta legitimidade ao lado de Diego Chaves e Fabiano Lorite. Na mesa e no cofre na sala de Fabiano, há diversos pacotes de esmeraldas guardados.

“Isso aqui é para vocês, investidores que tem vontade de investir com a gente, e estava se perguntando se esse negócio era de verdade, se a mina de esmeralda existia e a garantia…   tá na mão, né painho?”, diz Abrahão batendo em um saco de esmeraldas na mão.

O vídeo foi gravado em novembro de 2020, o que mostra que a Trust Investing já estava operando no ramo de pedras preciosas antes de ter qualquer licença na área — já que a Victory foi aberta em dezembro daquele ano.

Já o banco “revolucionário” da Trust Investing parece ter morrido sem ao menos ter um cliente. Nas redes sociais, não há qualquer publicação desde abril de 2021 e seu site, está fora do ar.  

O BDL Bank é apenas um dos diversos negócios “fantasmas” que a Trust Investing abriu ao longo dos anos. Entre os ramos que a empresa afirma atuar está o da vinicultura, através do Trust Wine, cujo slogan é “o delicioso sabor da confiança”.

A empresa também promove a Trust Travel Club — suposto clube de viagem dos clientes da Trust que permite pagar tudo com bitcoin —, Trust Energy Recicle, no qual a empresa prometeu que vai construir uma usina para a produção de energia limpa, além, é claro, da TrusterCoin (TSC), criptomoeda da empresa sem qualquer valor de mercado.

Hoje, as três principais plataformas da Trust Investing estão fora do ar (dauntrustentuvida.com; trustinvesting.com e trustercoins.com), sem a empresa oferecer qualquer explicação aos clientes.

O Portal do Bitcoin procurou repetidas vezes os envolvidos da Trust Investing para que dessem seu contraponto e apresentassem provas sobre a legalidade de suas operações, mas não obteve resposta.

Patrick Abrahão retornou à reportagem, mas não respondeu às perguntas que pediam mais informações sobre a suposta mina de esmeralda da Trust Investing.

“Não posso responder pela empresa, mas sei que possuem tudo que é necessário para seguir em funcionamento. Sobre os meus investimentos lá dentro e trabalho, sigo aguardando o site novo ficar pronto e o retorno das operações agora em agosto”, prometeu Abrahão.

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