Imagem da matéria: Os motivos que levaram El Salvador a adotar o Bitcoin como moeda corrente
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El Salvador foi o primeiro dominó a cair e se tornou o primeiro país a dar ao Bitcoin curso legal em seu território aprovando nesta semana a Lei Bitcoin.

Aprovada a lei, podemos nos perguntar: Por que El Salvador (e não outros países)? Quais motivos levaram esse pequeno país da América Central a tomar uma decisão tão radical quanto essa? Investigando esses motivos podemos tentar prever qual será o próximo dominó a cair.

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Esbocei uma explicação e para isso dividi três categorias de motivos: macroeconômicos, microeconômicos e o que chamei de “motivos do acaso”.

Motivos macroeconômicos

A característica macroeconômica mais relevante para a recente ‘bitcoinização’ de El Salvador é o fato de o país não possuir uma moeda nacional desde 2001 e usar o dólar americano como moeda oficial.

Ao usar o dólar como moeda, o governo de El Salvador já não tinha os ganhos associados ao monopólio de sua própria moeda estatal: inflação e senhoriagem.

Sim, inflação e senhoriagem são ótimos para um governo que emite sua moeda – e não para os cidadãos nem para a economia de um país. São tão bons que alguns governos abusam desses ganhos e, como um viciado em drogas, acabam destruindo suas próprias moedas e economias.

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Sem ter uma moeda nacional para chamar de sua, o governo salvadorenho estava mais aberto a considerar outras opções monetárias, de preferência adotando uma moeda que não fosse o monopólio de outro país.

Os Estados Unidos têm uma grande vantagem econômica por terem o monopólio do dólar, que é usado em outras economias como moeda de reserva de outros bancos centrais e também como moeda corrente em países como El Salvador e Equador. Assim, os americanos conseguem exportar sua inflação para outras jurisdições e importar bens de consumo.

Quando deixa de usar o dólar (ou qualquer outra moeda estatal) e passa a usar o Bitcoin, um país se conecta a uma rede aberta, descentralizada e com uma política monetária previsível, sem absorver a inflação criada por outra autoridade monetária. O povo salvadorenho simplesmente quis dar um basta nessa vassalagem monetária.

Motivos microeconômicos

Está nas considerações iniciais da própria Lei Bitcoin que 70% da população salvadorenha não tem acesso a serviços bancários tradicionais e que é dever do governo promover a inclusão dessas pessoas desbancarizadas.

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Em um país que depende tanto de remessas de estrangeiros que vivem fora, ter ou não acesso a uma conta bancária se torna uma questão de sobrevivência para milhares de famílias.

Um dos objetivos do governo é implantar sua própria wallet de Bitcoin usando a Lightning Network. Com essa wallet no celular, o governo busca conectar à rede Bitcoin toda esta população que nunca teve uma conta bancária.

A lei deixa claro que os cidadãos vão poder usar a wallet que desejarem para suas transações; a wallet oficial seria usada para facilitar a vida daqueles que não sabem qual instalar e terem a garantia de estarem usando uma wallet confiável.

É aqui que o jogo fica interessante. O dólar não é só uma moeda, ele é também é uma rede de transmissão dessa moeda – os grandes e poderosos bancos americanos, que comiam cerca de 50% das remessas estrangeiras cobrando taxas abusivas.

Adotando o Bitcoin, o povo de El Salvador dá uma banana para esses bancos e diz: não preciso de vocês para ter acesso a serviços financeiros essenciais como conta de depósito e transferências bancárias. Vou usar uma via que é mais barata, mais segura e mais aberta e ainda por cima usando uma moeda forte e inconfiscável.

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Outro motivo é a questão geracional. O Presidente de El Salvador é jovem para o cargo que ocupa (vai fazer 40 anos agora em julho) e me parece que Assembléia Nacional de El Salvador é composta por pessoas bem jovens também. A influência geracional é muito relevante para adotar o padrão Bitcoin. Nada contra quem tem mais idade. É só que pessoas mais velhas tendem a ser mais resistentes a mudar seus padrões mentais e comportamentais.

O Bitcoin ainda é uma tecnologia muito recente e difícil de entender. Adotá-lo como padrão monetário requer uma grande mudança mental e comportamental, por isso acredito que a idade teve um grande peso nesta decisão tanto do governo quanto dos congressistas.

Pense bem: o presidente tem 39 anos, El Salvador adotou o dólar há 20 anos, então o próprio presidente viveu grande parte da sua vida adulta sem ter criado vínculos com a ideia de uma moeda nacional. Nessas circunstâncias, fica muito mais fácil adotar outro padrão.

Além disso, existe uma relação mais profunda entre idade e moeda. Uma pessoa jovem é alguém que tem muito tempo pela frente e isso faz com que ela tenha um interesse de longo prazo no valor de sua moeda. Se essa moeda perde valor com o tempo – como ocorre com as moedas estatais – acumular essa moeda se torna cada vez menos vantajoso.

Ao contrário, acumular o Bitcoin (cujo poder de compra aumenta constantemente) é uma aposta no seu próprio futuro. É uma troca que seu “eu” presente faz com seu “eu” futuro.

Por fim, como o próprio presidente deixou claro conversando pelo Twitter, ele espera que a adoção do Bitcoin traga novos empregos e empresas para El Salvador.

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Ele acredita que Bitcoin é o futuro da moeda e resolveu entrar em contato com a comunidade ‘bitcoinheira’ salvadorenha para aprender mais sobre esta nova tecnologia. Com um bom entrosamento com essa comunidade, não foi difícil ganhar apoio popular e político com a promessa de que ajudando a população a usar a criptomoeda isso fará seu país um lugar mais livre e mais próspero. Bitcoin é futuro – e um bom futuro.

Motivos do acaso

A história às vezes é escrita pelo acaso e nesse caso calhou que El Salvador é um excelente país para o surf. Não me pergunte os motivos, mas existe uma comunidade surfista ‘bitcoinheira’ muito forte chamada Bitcoin Beach lá em El Salvador.

Essa comunidade entrou em contato com um jovem genial chamado Jack Mallers, fundador da empresa Strike, que desenvolve aplicações usando a Lightning Network. Jack se mudou para El Salvador e começou a disseminar o uso do Bitcoin para a população ampla além da comunidade surfista.

Conversa vai, conversa vem, ele foi convidado pela equipe do presidente para conversar e o resto é essa história sensacional contada pelo próprio Jack na última Conferência Bitcoin em Miami.

O mundo é um lugar misterioso e os motivos para uma mudança monetária tão relevante na verdade são meras especulações que tentam explicar fenômenos muito complexos.

Depois que um evento inesperado acontece, muitos correm para mostrar as razões óbvias para explicá-lo, mas até antes desconhecidas por todos. É uma tentação muito grande e eu não resisti. Agora só não consigo parar de pensar: Quem será o próximo dominó a cair? Conseguiremos prever?

Sobre o autor

Guilherme Bandeira pesquisa e escreve sobre Bitcoin e sua regulação jurídica no Brasil. Foi tradutor do livro “O Padrão Bitcoin” para o português brasileiro e tem uma newsletter sobre o assunto na qual o artigo originalmente foi publicado.

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