Imagem da matéria: Explicando a Lightning Network do Bitcoin para sua avó
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“Você não sabe algo de verdade se não consegue explicar para sua avó”. Pensando neste adágio resolvi explicar aqui como funciona a Lightning Network (LN) de uma forma que até sua avó entenderia. Antes vou contar uma história verdadeira.

Antigamente meu pai tinha uma conta na padaria. Era uma caderneta que ficava com a caixa, que anotava todo dia de manhã tudo o que ele consumia por lá. Meu pai e a dona da padaria — que se conheciam há muito tempo — tinham estabelecido um acordo, como um fiado: ele consumia tudo o que queria, a caixa anotava na caderneta o que ele consumiu com o valor ao lado e meu pai assinava na caderneta conferindo o que estava devendo.

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A caderneta era bem parecida com esta

No final do mês, em uma data específica, a moça do caixa fechava a conta e ele pagava tudo o que tinha consumido. Todo mês, então, tinha uma listinha de itens e valores (pão na chapa, café, suco, etc.) com a assinatura dele embaixo e o total de tudo o que ele consumiu para ser pago.

Por que eles faziam isso?

Para meu pai havia duas vantagens. A primeira é que ele podia comer, assinar a caderneta rápido e pagar tudo só no final do mês. Para a dona da mercadoria também era um bom negócio. Além de “fidelizar” o cliente, ela também acelerava a fila do caixa (que em certas horas da manhã poderia ficar cheia de gente com pressa) e ainda concentrava o pagamento em uma única transação no final do mês, o que poupava as taxas que ela paga com as bandeiras dos cartões.

O princípio de funcionamento da LN é semelhante. Quando meu pai e a dona da padaria estabeleceram o uso da caderneta, abriram um canal mais rápido para transações pequenas, que era liquidado só mais na frente em uma grande transação.

Como todo mundo já sabe, confirmar uma transação na rede do Bitcoin é relativamente caro, principalmente para transações que envolvem poucos satoshis (1 BTC = 100.000.000 satoshis). Quando um canal na LN é aberto, é como se uma caderneta fosse aberta, só que ao invés de envolver só meu pai e a dona da padaria, um canal da LN envolve muitas pessoas que não se conhecem pagando umas às outras.

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Mas o princípio é o mesmo: uma segunda camada é uma forma de agilizar as transações pequenas e liquidá-las na rede principal do Bitcoin só quando atingirem um volume considerável.

Para que o Bitcoin funcione não só como uma moeda forte ‘inconfiscável’, mas também como uma rede de pagamentos globais, várias outras segundas camadas serão necessárias, sendo a LN a mais famosa delas. Porém existem outros projetos muito promissores, como a Rede RSK, Liquid Network, Drivechains / Statechains e contratos inteligentes RGB.

Pode parecer que a necessidade de diversas camadas para o funcionamento de um sistema monetário é uma coisa nova e exclusiva do Bitcoin, mas isso não é verdade. O sistema centralizado das moedas estatais também possui diversas camadas, com níveis de segurança diferentes.

A empresa Visa processa normalmente 4.000 transações por segundo, e no máximo 65.000 transações por segundo, mas essas transações são operações de crédito que são repassadas para o sistema bancário, como se fosse um sistema eletrônico de caderneta entre os clientes da Visa e os bancos.

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Muitas vezes uma simples compra de cafezinho só é liquidada semanas depois em uma grande transação entre os próprios bancos. A liquidação entre os próprios bancos é outra parte do problema, sendo a confirmação final feita só mesmo através do Banco Central, o nó central do sistema brasileiro.

A rede do Bitcoin é descentralizada, possui vários nós que precisam validar as transações finais e por isso comporta poucas transações por segundo em sua camada principal. Como cada bloco tem capacidade para um megabyte, confirmar uma transação lá é muito caro para compras pequenas.

Porém, a rede principal é a mais confiável que há: o número de bitcoins não mudará, o histórico de transações não pode ser alterado e você não precisa da autorização de ninguém para transacionar. Todas essas características trazem os valores principais do Bitcoin: escassez absoluta, descentralização e liberdade de transação.

O sistema centralizado das moedas estatais é o oposto disso: inflacionário, centralizado e altamente censurável. O Banco Central pode criar tantas unidades de Real (BRL) quanto achar melhor, pode também alterar o registro de transações retroativamente e ainda censurar quem pode fazer parte da rede. Péssimo para o cidadão, ótimo para os bancos e para o governo, que manipulam a oferta monetária e mantêm o oligopólio do sistema.

Sorte de nós que existe o Bitcoin como alternativa. Nos próximos anos, veremos uma explosão de segundas camadas, por meio das quais pessoas poderão pagar pelos seus cafezinhos na moeda mais forte e livre já inventada.

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Pagaremos rapidamente nosso pão-na-chapa com satoshis usando o celular para ler o código QR do celular da dona da padaria, tudo via sidechains.

Vai ser lindo.

Sobre o autor

Guilherme Bandeira pesquisa e escreve sobre Bitcoin e sua regulação jurídica no Brasil. Foi tradutor do livro “O Padrão Bitcoin” para o português brasileiro e tem uma newsletter sobre o assunto na qual o artigo originalmente foi publicado.

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