Imagem da matéria: O Impacto das Criptomoedas Sobre a Estatística Oficial e Como Isso Afeta sua Vida

Sabe o que grandes empresas, estados e grandes bancos têm em comum? São atores que precisam decidir sobre como atuar em regiões diversas, cada qual com suas leis, costumes e mercado.

Um dos modos de tornar essas decisões mais fáceis e acuradas é realizar análises utilizando estatísticas sobre os locais nos quais se deseja fazer um investimento, abrir uma filial, realizar um acordo comercial ou operacionalizar políticas públicas. Dados quantitativos como poder de compra, roubos de carga e densidade populacional são tão importantes quanto dados qualitativos, como costumes, leis e valores na hora de se realizar tais decisões.

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Agora imagine um cenário no qual os resultados das estatísticas fossem menos e menos confiáveis, no qual dinheiro público fosse ainda mais desperdiçado, não por falta de competência, mas por uma maior margem de erro nos dados sobre os quais as decisões foram tomadas. Nesse momento, a maioria dos países com bancos centrais já estão cientes de mais um dos efeitos em longo prazo das criptomoedas: a degradação da estatística oficial. O simples fato das criptomoedas serem descentralizadas e não levantarem dados restritos a qualquer tipo de fronteira geográfica significa uma tremenda dificuldade de levantá-las como riqueza mensurável de um estado. Medidas como produto interno bruto, renda per capta, balança comercial, coeficiente gini entre outros tantos não contam com o mercado mediado por criptomoedas.

Um cenário de crescente utilização de criptomoedas implica em menor representatividade das pesquisas estatísticas estatais que levantam tais dados, algo que se prolongaria para outras estatísticas sem o menor problema, principalmente no setor de serviços, onde tanto salários quanto relações de compras e vendas podem ser realizadas sem conhecimento do estado com maior facilidade. De fato, tais efeitos já foram levantados pelo diretor do banco central irlandês desde 2014:

“O ponto de partida para toda a gestão econômica é a mensuração de sua atividade. A maioria dos países possui pelo menos uma agência estatística oficial encarregada por essa responsabilidade. O uso mais generalizado de uma moeda virtual significaria que as agências estatísticas teriam que coletar dados sobre a atividade em moedas virtuais. Caso contrário, medidas de atividade econômica não seriam completas. Não devemos subestimar a gama de fins para os quais as medidas contábeis nacionais são usadas na administração das economias. A esse respeito, a completude e a integridade dessas estatísticas são vitais.”

Por que isso me importa?

Governantes e gestores públicos em geral precisam dessas estatísticas para realizar um trabalho minimamente eficiente, quando se dispõem a o fazer, e o cenário das criptomoedas não deve mudar. A provável estratégia mais prudente a ser adotada, do ponto de vista de um gestor público, seria a do lançamento de criptomoedas estatais para substituir as moedas fiat. Essas criptomoedas seriam iguais a criptomoedas convencionais em sua operacionalização pelos clientes, mas sua governança continuaria igual a das moedas fiat, com emissão e parâmetros controlados pelo Estado, não sendo anônimas ou pseudônimas e provavelmente de código fechado. A utilização de criptomoedas permissionárias, como descritas acima, poderia gerar estatísticas mais seguras e com maior capilaridade que as geradas por moedas fiat. Vale ressaltar que o efeito das criptomoedas é, até agora, majoritariamente sobre estatísticas quantitativas de âmbito econômico. Estatísticas qualitativas, ou que não envolvam trocas monetárias, não só continuariam a ser feitas da mesma forma, como poderiam se tornar relativamente mais procuradas pelo enfraquecimento das outras.

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Grandes empresas e instituições, por sua vez, teriam que encontrar formas de garantir a integridade das informações que utilizam para tomar decisões estratégicas. Dado que já delegam grande parte da coleta de informações para empresas especializadas de consultoria, a crescente aceitação das criptomoedas faz necessário cada vez mais rigorosa escolha da consultoria visto que, simplesmente pegar estatísticas geradas por instituições públicas talvez não mais implique em margens de erro reduzidas. Saber consultar profissionais qualificados e empresas capazes de trabalhar com análises que cruzem informações de bancos de dados em blockchain pode se mostrar o diferencial entre uma decisão estratégica bem ou mal sucedida.

Caso a descentralização da informação resulte em um aumento de decisões estratégicas errado, a adoção das criptomoedas pode resultar na descentralização da produção, visto que somente empresas grandes precisam tomar decisões desse nível, cenário que favorece pequenos e médios empresários. Que a adoção de criptomoedas é vantajosa para pequenos empresários na hora de realizar vendas, também não é nenhum segredo.

Por fim, os cidadãos podem ser afetados de maneira diferente em função do tempo. Em um primeiro momento, supondo que seus governantes realmente façam decisões estratégicas visando beneficiar a população, as criptomoedas podem diminuir a eficiência das políticas públicas locais. No entanto, especialmente no caso da adoção de criptomoedas permissionárias pelos estados, cabe ao cidadão decidir que tipo de ordem adotar pela moeda que utilizar. Decidir dar apoio ao corpo governante em poder, ou ao regime em questão, significa utilizar a criptomoeda estatal, pois você contribuiria não só com impostos, mas com informação para o manejo público. Decidir contestar os governantes em poder, ou o regime em questão, significa adotar criptomoedas verdadeiras – Bitcoin, Litecoin, ZCash – no seu dia-a-dia, negando impostos e informações para a manutenção daquela ordem. Algo dessa magnitude, se aplicado a um governos com baixa aprovação, provavelmente teria resultados imediatos e mais significativos do que manifestações e outros tipos de protestos.

O importante é perceber que, na estatística também, as criptomoedas trazem para seu poder a decisão de votar em um ou outro tipo de ordem, coisa que antes era realizada unicamente por elites por meio do lobbying. Se a legitimidade da democracia vem do povo, qualquer decisão para o rumo do estado, se tomada pelo mesmo povo via criptomoedas, será no mínimo uma decisão realmente democrática.