Imagem da matéria: Desenvolvedor deixa o Bitcoin Core e defende atualização que torna mais difícil censurar a criptomoeda
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Dhruvkaran Mehta, um proeminente desenvolvedor do Bitcoin Core, anunciou nesta quarta-feira (19) que está se afastando do projeto para se concentrar em uma nova startup, que também vai atuar de forma relacionado ao Bitcoin.

Ao anunciar que vai deixar o posto, ele também fez uma defesa enfática da proposta de melhoria da rede do Bitcoin BIP 324, da qual sempre foi um dos maiores defensores. A proposta prevê uma alteração na forma como são criptografados os nodes (Nós) da blockchain, de forma a torná-la mais resistente à censura.

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“A BIP 324 está indo para mãos melhores que as minhas”, tuitou Mehta. “Tenho uma ideia de startup de Bitcoin que me deixa tão empolgado que algumas noites é difícil dormir. Sinto em meu corpo que devo tentar. Não arriscar nada é arriscar tudo.”

Ex-engenheiro de software do Google, Mehta não detalhou qual é sua ideia de startup, mas ele não é estranho ao mundo dos novos negócios. Em 2013, Mehta lançou a Outbound, uma plataforma de mensagens que arrecadou US$ 2,2 milhões e acabou sendo adquirida pela Zendesk em 2017.

Bitcoin mais resistente à censura

A popularidade do Bitcoin deve-se em grande parte ao fato de que nenhum terceiro o controla, incluindo os governos.

Ainda assim, os desenvolvedores da maior criptomoeda estão constantemente pensando em como evitar que entidades poderosas abram brechas na tecnologia para atacá-la ou aumentar as regulamentações e até censura contra o ativo digital.

Um potencial vetor de ataque ao Bitcoin é que os Nós da rede se comunicam entre si por meio de tráfego não criptografado. Interesses poderosos, como os de governos e provedores de serviços de Internet (ISPs), poderiam usar essa fraqueza para realizar ataques do tipo “man in the middle” em Nós da rede Bitcoin, onde coletariam secretamente informações sobre transações enviadas.

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Para combater isso, o BIP 324 é uma proposta de melhoria da blockchain do Bitcoin para criptografar o tráfego entre Nós na rede. Isso torna os metadados da rede — como o local de origem de uma transação — mais privados, tornando mais difícil para os bisbilhoteiros espionarem o que os usuários estão fazendo.

O projeto foi revivido em 2021 justamente por Dhruv Mehta, acompanhando o trabalho realizado pelo ex-mantenedor do Bitcoin Core, Jonas Schnelli, ao longo dos anos.

E o projeto está em fase de conclusão. A maior parte do código já está escrito e os usuários do Bitcoin já estão testando o código na rede principal do Bitcoin. Ele só precisa de mais desenvolvedores para testar e rever as mudanças para estar totalmente alinhado.

Censura ao Bitcoin

Ao Decrypt, Mehta disse que vinha trabalhado de forma sigilosa na ideia de trazer o BIP 324 à vida porque ele via isso como uma mudança importante para manter o Bitcoin fora do controle de entidades poderosas.

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Se esses players — como ISPs e governos — tiverem acesso ao que cada um dos Nós está fazendo e de onde vêm as transações, elas podem ser facilmente interrompidas ou “censuradas”, o que o Bitcoin foi expressamente projetado para evitar.

O desenvolvedor vê esse tipo de ataque cada vez mais provável à medida que o Bitcoin cresce. Ele explicou que a “razão filosófica” para defender a BIP 324 é porque os governos tentarão descobrir como parar o Bitcoin, se ele continuar ganhando força.

Um alvo natural seriam os Nós do Bitcoin, ou seja, os milhares de computadores administrados por voluntários em todo o mundo que executam o software da criptomoeda.

“Se eles podem atacar Nós, eles podem dificultar muito o uso do Bitcoin”, explicou Mehta. “Eles podem eclipsar seu Nó. Eles podem identificar que você está executando um Nó Bitcoin Core. Podem identificar a origem das transações. Eles podem dificultar muito a execução do Nó”.

Mas ele não se preocupa apenas com os governos, mas sim qualquer entidade com recursos suficientes para empreender tal ataque.

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“Estou menos interessado em quem pode fazê-lo, e sim no que é possível fazer”, disse ele.. “Se algo é possível e há um incentivo para fazê-lo, então qualquer entidade pode fazê-lo. É fácil especular sobre os governos porque eles têm recursos aparentemente infinitos, mas poderiam ser ISPs? Talvez. Se os sistemas bancários paralelos (shadow banks) forem afetados, podem ser eles? Talvez”, explicou.

Subindo o sarrafo

Isso não quer dizer que o BIP 324 impedirá totalmente que esses tipos de ataques aconteçam. O Bitcoin é um sistema não-permissionado. Em outras palavras, qualquer pessoa pode participar executando um Nó e conectando-se a outros Nós na rede. “Um ataque “man-in-the-middle” parece apenas outro Nó. Você não pode realmente parar isso”, disse Mehta.

Mas o BIP 324 torna a coleta destes dados muito mais difícil. O invasor precisaria se conectar a — ou realizar o ataque “man-in-the-middle” —a todos os Nós que deseja coletar informações.

Sem mencionar que, sem o BIP 324, um hacker poderia coletar informações sobre esses Nós sem sequer ser notado. Com o BIP 324, é mais fácil perceber quando um invasor está tentando coletar essas informações, porque eles precisam fazer conexões explícitas com cada Nó do qual desejam coletar informações.

“Você não é mais um adversário passivo que pode fazer isso secretamente”, disse Mehta.

Fazer todas estas ligações individuais também é muito mais caro. “Se você eleva o nível de passivo para ativo, então é preciso muito mais recursos para fazer essas coisas, então o que acontece é que tem que haver uma razão maior para fazer tudo isso.” Mehta disse, acrescentando: “hoje [os hackers] podem ir atrás de quantidades muito pequenas de Bitcoin porque o potencial de identificação é alto.”

A implementação do BIP 324, se e quando implementado, tornará o Bitcoin mais forte, mesmo que não elimine completamente o vetor de ataque. “Eu quero que o pior cenário seja menos ruim”, finaliza Mehta

*Traduzido por Gustavo Martins com autorização do Decrypt.

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