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A semana que deveria ter matado o Bitcoin

Entre um short squeeze de quase US$ 1 bilhão e entradas firmes nos ETFs, o Bitcoin transformou o pior cenário possível em combustível para a alta

Imagem da matéria: A semana que deveria ter matado o Bitcoin
Foto: Shutterstock

A semana de 14 a 18 de setembro parecia desenhada para dar errado para o Bitcoin. O ativo vinha de uma forte recuperação dos US$ 63 mil para perto dos US$ 80 mil, mas havia estacionado em um canal entre aproximadamente US$ 77 mil e US$ 82 mil.

O mercado esperava um rompimento e, olhando para o calendário, os argumentos para que ele acontecesse para baixo pareciam fortes: uma derrota regulatória importante nos Estados Unidos e uma nova alta de juros pelo Federal Reserve.

O primeiro golpe veio em 15 de setembro. O Senado não conseguiu os 60 votos necessários para avançar com o CLARITY Act, projeto que buscava criar regras mais claras para o mercado cripto e dividir responsabilidades entre SEC e CFTC.

Com as eleições de meio de mandato se aproximando, a derrota também reduziu uma janela política importante para uma legislação mais duradoura.

No dia seguinte veio o segundo golpe: o Fed elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para 3,75% a 4,00%. Tudo isso enquanto o petróleo superava US$ 100 e os juros de 10 anos dos EUA alcançavam 5,15%, maior nível desde 2007. Era quase o cenário perfeito para matar o rally do Bitcoin.

E, por algumas horas, pareceu que conseguiria. O BTC perdeu o suporte dos US$ 77 mil e chegou próximo dos US$ 75 mil. Para quem apostava na queda, o roteiro estava funcionando: regulação frustrada, juros maiores, liquidez mais apertada e suporte rompido. Só faltava o Bitcoin continuar caindo. Foi justamente aí que o roteiro virou.

O ativo recuperou rapidamente o suporte, subiu 5,6% na semana e, poucos dias depois, alcançou US$ 87 mil. Do fundo próximo dos US$ 75 mil, foram cerca de 16% de valorização.

O próprio consenso negativo ajudou a alimentar a recuperação. O excesso de posições apostando contra o Bitcoin criou combustível para um short squeeze, quando a alta força investidores vendidos a encerrarem suas posições, gerando novas compras e acelerando o movimento.

Mais de US$ 400 milhões em posições vendidas chegaram a ser liquidados em questão de horas e mais de US$ 900 milhões em um único dia. Mas seria simplista explicar tudo apenas pela desalavancagem. Enquanto o CLARITY fracassava no Congresso, outras peças da agenda cripto americana continuavam avançando.

Dois dias depois, a SEC anunciou uma Innovation Exemption de cinco anos que, sob determinadas condições, abre espaço para negociação on-chain de ações americanas tokenizadas. Na Câmara, uma comissão também avançou o American Reserve Modernization Act, projeto ligado à transformação da Reserva Estratégica de Bitcoin em política federal.

A CFTC, por sua vez, continuou sinalizando uma postura favorável à inovação e à tokenização. Ou seja, o mercado perdeu a segurança de uma grande lei aprovada pelo Congresso, mas não perdeu a direção regulatória favorável que vinha sendo construída pelas agências e por outras frentes políticas.

E havia outro detalhe difícil de ignorar: compradores reais continuavam aparecendo. Os ETFs à vista de Bitcoin nos EUA receberam mais de US$ 3,5 bilhões líquidos em agosto e setembro caminhava para mais um mês de entradas relevantes. Isso muda a leitura da alta. O short squeeze pode ter acendido o fósforo, mas havia demanda para manter o fogo aceso.

A semana que deveria ter matado o Bitcoin acabou mostrando justamente o contrário. O ativo recebeu, praticamente ao mesmo tempo, uma derrota regulatória, juros maiores, petróleo acima de US$ 100 e Treasuries em níveis não vistos há décadas. Caiu, perdeu suporte e deu aos pessimistas exatamente o movimento que esperavam. Depois recuperou tudo e acelerou.

Isso não torna o Bitcoin imune a novas quedas. Mas deixa uma provocação importante para quem continua olhando apenas para o próximo motivo para o ativo cair. Ao longo de sua história, cada grande fundo de ciclo ficou acima do anterior, assim como cada grande topo alcançou uma nova máxima.

Se uma semana desenhada para matar o rally terminou com o Bitcoin mais forte, talvez a pergunta mais interessante não seja por que ele deveria cair, mas o que continua sustentando sua capacidade de sobreviver.

Sobre o autor

Pedro Fontes é graduando em economia na UFRJ e finalista do CFA Challenge Brasil. Começou sua jornada no mercado cripto em 2021, trabalhando na área de tokenização de carteiras de investimento. Atualmente integra a equipe de analistas de criptoativos do MB.