Sobre “CriptoFraude” e as reincidências dos golpes financeiros ao longo do tempo | Opinião

Com uma abordagem cheia de cortes e utilizando a ironia como elemento de entretenimento, o documentário cativa a atenção do público
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(Foto: Shutterstock)

No último fim de semana vi entre os lançamentos da Netflix um documentário chamado “CriptoFraude” (Bitconned, 2024, Bryan Storkel), que expõe detalhes da fraude da Centra, promovida por três contraventores, sendo que um deles, Ray Trapani, que delatou os demais e não cumpriu qualquer pena por seus crimes por essa cooperação, narra tudo sob seu ponto de vista.

Apesar das sinopses resumidas venderem que se trata de um caso de golpe envolvendo criptomoedas, na verdade é um filme que trata de um golpe que se aproveita de uma das primeiras ondas do Bitcoin através de uma empresa de fachada que vendia uma solução bastante demandada pelos investidores cripto da época: a capacidade de utilizar seus ativos em transações cotidianas por meio de um cartão.

A busca por enriquecimento rápido e fácil é uma constante em uma sociedade onde aqueles que obtêm maiores lucros são elevados ao status de “vencedores” pela mídia e pelos pares, não sendo algo exclusivo ao mercado cripto, como costumava ser retratado no mercado financeiro tradicional até recentemente.

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Os cuidados com investimentos voláteis e de alto risco como as criptomoedas já valiam quando eu era criança e tentavam vender títulos das fazendas Boi Gordo como uma ótima oportunidade de enriquecer, e muitas outras antes mesmo de eu nascer.

Voltando ao documentário, o diretor BryanStorkel encaixa toda narrativa no formato moderno de documentário estabelecido pela entrada da Netflix neste mercado (e trazendo maior popularização a narrativas não-fictícias no cinema de streaming que substituiu o home vídeo). Com uma abordagem cheia de cortes e utilizando a ironia como elemento de entretenimento, ele tenta cativar a atenção do público.

Isso funciona muito bem, inclusive para percebermos o quanto as vítimas do esquema foram realmente enganadas por todo o esquema artificial montado. Algumas estavam cegas pela intensa ganância de enriquecer de maneira fácil e rápida, enquanto outras talvez carecessem de uma educação financeira sólida para discernir por si mesmas se aquilo era genuíno ou apenas mais um esquema Ponzi.

Podemos colocar esse questionamento também dentro das ambições de Trapani e companhia ao elaborar este golpe e principalmente nas alavancagens que buscaram para arrecadar ainda mais com as vítimas do esquema. Essas táticas foram cruciais para atrair a atenção da imprensa e das autoridades regulatórias, culminando na desarticulação do esquema quando decidiram investigar as intricadas teias de enganos que eram vendidas aos clientes.

Coincidentemente, publicamos no Portal do Bitcoin esta semana uma matéria escrita pelo colega Rodrigo Tolotti sobre uma pesquisa da CVM e FGV que expõe um dado que se alinha ao eixo central do documentário “CriptoFraude”: as vítimas de pirâmides financeiras têm uma propensão maior de serem enganadas novamente em um novo esquema Ponzi do que aquelas que nunca foram vítimas desse tipo de golpe.

Sem nenhuma pretensão de soar acadêmico ou como um expert no tema, sempre acreditei que o grande combustível dos golpistas são, nesta ordem, um ecossistema que estimula o pensamento de que é possível enriquecer de forma fácil e rápida, uma sociedade que não preza pela educação financeira como elemento essencial para a cidadania, e a forma leniente que o sistema judiciário adota mais para minimizar danos às vítimas do que para corrigir e educar contra o cerne do crime cometido.