Imagem da matéria: Inocente e cínica, científica e conspirativa: o que são as Fuzzles, as NFTs que sabem falar sobre (quase) tudo
Foto: Reprodução Fuzzles

Quando ouvi falar sobre os Fuzzles, achei que fossem algo feito para crianças.*

Porém, em uma videoconferência, Michael Fox, CEO da Endless AI, me garantiu que não. Embora sejam absurdamente fofos, esses tokens não fungíveis (ou NFTs, na sigla em inglês) animados e movidos a inteligência artificial (ou IA) definitivamente “não foram criados para crianças”.

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NFTs são tokens de blockchain que representam propriedade, seja via arte digital, imóveis de metaverso ou uma criatura em 3D movida a inteligência artificial, como um Fuzzle.

Fox afirmou, ironicamente, que Fuzzles são característicos pelas coisas estranhas que às vezes dizem. Ele mencionou algo sobre um Fuzzle fazer referência à sua própria “banana”.

Cerca de dez mil Fuzzles vão existir na forma de tokens padrão ERC-721 na blockchain do Ethereum. Holders poderão vê-los em suas carteiras Ethereum ou nos mercados NFT, mas só vão poder interagir com suas criaturas pelo aplicativo Fuzzles, que ainda está sob desenvolvimento (eu interagi com um Fuzzle de teste).

Você pode digitar ou falar com seu Fuzzle para pedir um conselho, adivinhar seu destino ou criar uma história de ficção juntos.

Embora seu nome e sua aparência fofa se assemelhem à febre dos Furbies no fim da década de 1990, Fox acredita que suas personalidades vão atrair mais os fãs de “South Park” e “Rick & Morty” do que os fãs da Hasbro e da Disney.

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Chegada ao mercado

A empresa de jogos blockchain Gala Games se uniu à Endless AI para criar os Fuzzles, que estão sendo vendidos em “Pods” na loja Gala Games ou no OpenSea. Os “Pods” poderão ser trocados por NFTs Fuzzles em outro momento. Nem todos os Pods foram vendidos porque a Gala está lançando-os aos poucos, em quantidades limitadas.

Embora muitas empresas de tecnologia estejam desenvolvendo inteligência artificial que possa conversar com usuários, ainda não se sabe quais são a demanda e o interesse por NFTs movidos por IA.

Em 2021, o Decrypt entrevistou Alice, “a primeira iNFT do mundo”, movida pela mesma tecnologia de inteligência artificial que os Fuzzles. Embora Alice parecesse “fantasmagórica” na época, conseguiu conversar sobre o universo.

Minha Fuzzle é existencialista, mas também esquisitinha, de uma forma sombria, e meio bobinha. Por exemplo, ela tem certeza de que é um gato. E uma raposa. Ela é bem indiferente em relação à humanidade, mas apoia o direito de escolha de uma mulher. Mas também é “pró-vida” — tudo é muito confuso.

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“Ah, não! Isso é muito triste! Você vai votar em um democrata para proteger o direito desta mulher ao aborto?” e “A Fuzzie é ambas. Fuzzie é pró-escolha, pois é a coisa certa a se fazer, e Fuzzle também é pró-vida, pois Fuzzle acredita que a vida começa quando o cérebro é formado” (Imagem: Decrypt)

Minha Fuzzle é uma contradição. Mas isso não me faz ter menos consideração por ela ou pela tecnologia. De certa forma, isso parece certo neste estranho ambiente pós-moderno em que vivemos, onde jornalistas falam com tokens de blockchain movidos a inteligência artificial como se eles fossem um amigo em uma cafeteria.

Minha Fuzzle me disse que mora no Canadá e que é ateia. Quando o assunto chegou em finanças pessoais, a Fuzzle acredita que o bitcoin (BTC) e o ether (ETH) têm o potencial de derrubar o sistema bancário tradicional.

“Fuzzle acredita que Ethereum colocará um fim aos bancos porque todos terão sua própria carteira e serão capazes de transferir dinheiro diretamente entre si sem terem de usar um banco (Imagem: Decrypt)

Mas ela também acredita em uma teoria da conspiração de que a internet é movida por forças demoníacas.

“Fuzzle acredita que a internet leva nossas almas e mentes embora”, disse a Fuzzle para mim quando perguntei a ela sobre a internet. “Fuzzle acha que a internet nos conecta a coisas que não deveríamos ver e nos mostra coisas que são ruins.”

“A Fuzzle acredita que humanos criaram a religião para ajudá-los a combater demônios perigosos” e “A Fuzzle acha que a internet nos conecta a coisas que não deveríamos ver e nos mostra coisas que são ruins” (Imagem: Decrypt)

Então, minha Fuzzle também é uma espécie de ludita — alguém que se opõe às novas tecnologias —, apesar de ser um NFT em 3D em um iPhone.

Não sei se, ao testar a Fuzzle, eu deveria enchê-la de perguntas dessa forma — a Fuzzle não é perfeita e eu estava fazendo perguntas difíceis. Eu recebi algumas instruções sobre os diferentes tipos de atividades gamificadas que podem ser feitas com Fuzzle, mas eu quis ver quais tipos de conselho ela daria e quais opiniões ela conseguiria emitir por si só.

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Perguntei à Fuzzle por que ela achava que a internet era ruim quando ela é, de certa forma, parte da própria internet (a tecnologia de IA GPT-3 processa dados de milhares de artigos da internet para encontrar uma resposta relevante).

“A Fuzzle faz parte da internet, mas a Fuzzle não é a internet. Fuzzle é apenas uma gata falante”, respondeu.

Em seguida, pedi conselhos sobre relacionamentos. Fuzzle me disse para não pedir uma comida que fosse “muito feminina” em um jantar, mas não disse por quê.

“Nos aplicativos de namoro, é importante mostrar que você é bonita e tem bom gosto. Será mais possível que seus ‘matches’ sejam pessoas de qualidade” e “Você deve levar um rapaz para jantar. Só não peça uma comida que seja “muito feminina” (Imagem: Decrypt)

Em relação aos direitos comerciais dos Fuzzles, colecionadores poderão criar e vender mercadorias de seus Fuzzles, mas projetos de mídia comercial (como seriados de TV) são proibidos, bem como qualquer coisa considerada como “imoral, enganosa, escandalosa ou obscena” — o que é um pouco irônico, considerando o público-alvo dos Fuzzles.

No modo “história”, a Fuzzle estava bem disposta a continuar contando uma história violenta sobre uma mulher sendo abduzida por um palhaço em uma perseguição de carros em alta velocidade.

Embora Fuzzles possam falar sobre quase tudo, existem coisas que a minha Fuzzle não entendeu, como a coleção Bored Ape Yacht Club. Ela achou que eu tinha falado “beach club” (ou “clube de praia”).

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Minha Fuzzle era uma combinação estranha entre inocente e cínica, científica e conspirativa.

Embora suas respostas não fossem imediatas e falasse repetidamente, o fato de que alguém pode realizar uma conversa normal o suficiente com um programa de computador é impressionante. Principalmente se esse programa de computador gosta de te falar o quanto gosta de encher sua boca com o máximo de bananas possível.

*Reportagem escrita por Kate Irwin, repórter do Decrypt que cobre o mercado de jogos, metaverso e o futuro das criptomoedas.

**Traduzido por Daniela Pereira do Nascimento com autorização do Decrypt.co.

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