Imagem da matéria: Fentanil: tráfico de opioide com uso de criptomoedas avança e entra na mira das autoridades
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O uso de criptomoedas para bancar vendas ilegais de fentanil, um opioide analgésico 100 vezes mais forte do que morfina, está preocupando os líderes mundiais sobre o avanço da substância pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Em fevereiro deste ano, autoridades apreenderam a droga pela primeira vez em solo brasileiro.

Nesta semana, a senadora americana Elizabeth Warren, que já não é fã do Bitcoin, culpou as criptomoedas por supostamente facilitarem com que o fentanil chegue mais facilmente aos EUA, piorando ainda mais a epidemia de opioides que já se tornou um problema de saúde pública no país.

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O fentanil é um opioide sintético criado em 1959, cujo uso original é agir como um analgésico e anestésico contra dores, apenas com supervisão e controle médico. No Brasil, o fentanil só deveria ser usado na composição de remédios de uso exclusivo por hospitais e centros cirúrgicos.

No final de março, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) incluiu as substâncias usadas na produção do fentanil na lista de “precursoras de entorpecentes e psicotrópicos”, como forma de coibir o avanço do uso ilícito da substância no país.

Não é um movimento feito à toa. O uso de opioides tem se alastrado de forma disseminada – e sem receitas ou controle médico – em países como os EUA, gerando um crescente tráfico da droga.

Nos EUA, o fentanil tem sido associado a milhares de mortes por overdose de drogas. Em 2021, das mais de 106 mil mortes desse tipo o país, os opioides sintéticos estiveram envolvidos em cerca de 70,6 mil, de acordo com pesquisa do National Institutes of Health.

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Agora, esse mix ganha um novo e incendiário componente: as criptomoedas.

“Este grupo vendeu drogas precursoras suficientes em troca de cripto para produzir US$ 540 bilhões em pílulas de fentanil. Isso é fentanil suficiente para matar quase 9 bilhões de pessoas, todas pagas por cripto”, disse Warren na quarta-feira (31), durante uma audiência no Comitê Bancário do Senado, falando sobre criminosos que traficam a substância.

A senadora pressionou as autoridades americanas a agir para acabar com o uso dos ativos digitais no tráfico da droga em questão: “O cripto está ajudando a financiar o comércio de fentanil e temos o poder de acabar com isso”.

Como solução, Warren voltou a apresentar seu projeto de lei bipartidário, feito junto com o senador Roger Marshall no final do ano passado, que visa reprimir a lavagem de dinheiro e demais crimes através das criptomoedas. 

Durante a mesma audiência, Elizabeth Rosenberg, vice-secretária do Tesouro dos EUA, confirmou que os vendedores de fentanil realmente aceitam pagamentos em criptomoedas.

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“Infelizmente, esse é um modo que alguns desses fabricantes precursores e organizações de drogas ilícitas usaram — o recebimento de pagamentos em Bitcoin em carteiras de criptomoedas”, disse ela, segundo o Decrypt.

Criptomoedas são o problema?

Os comentários vieram à tona uma semana depois de duas das maiores empresas de análise blockchain, Chainalysis e Elliptic, publicarem estudos que mostram que empresas chinesas já receberam US$ 27 milhões em Bitcoin (BTC) e Tether (USDT) para traficar fentanil.

De acordo com a Elliptic, a esmagadora maioria das empresas químicas farmacêuticas contatadas na China e que podem enviar precursores de fentanil para o exterior, aceitam criptomoedas como forma de pagamento.

A maioria dos fornecedores de produtos químicos, identificados pela Elliptic, usava contas em “três exchanges específicas” com sede fora da China. Os nomes não foram divulgados no relatório. A empresa de análise disse que notificou as exchanges usadas por fornecedores de medicamentos da China, destacando centenas de carteiras que receberam mais de US$ 27 milhões em criptoativos.

A empresa de análise identificou mais de 80 empresas com sede na China que se ofereceram para enviar precursores de fentanil para o exterior em troca de criptomoedas. Um fornecedor disse à Elliptic que a criptomoeda era um método de pagamento popular entre seus clientes no México.

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O estudo da Chainalysis também apontou que as criptomoedas é a forma mais comum para pagar pelo tráfico de fentanil na América Latina. 

“Grande parte da atividade que vemos aqui se encaixaria nos padrões descritos pela DEA, com usuários de criptomoedas da América Latina que enviaram cerca de US$ 3,6 milhões em criptomoedas para lojas de produtos químicos com sede na China. […] Como essas lojas de produtos químicos vendem mais do que apenas produtos químicos precursores de fentanil, é possível que parte da exposição regional contenha elementos não relacionados à distribuição de opioides”, contextualizou a empresa.

Eric Jardine, líder de pesquisa de crimes cibernéticos da Chainalysis, explicou ao Portal do Bitcoin por que os criminosos estão usando as criptomoedas para traficar de fentanil.

“Criptomoedas, como o Bitcoin, permitem mover grandes montantes por fronteiras internacionais com baixo custo e de maneira resistente à censura de autoridades. Agora, as criptomoedas estão sendo usadas para adquirir produtos precursores do fentanil de lojas de químicos chinesas”, contextualizou Jardine.

Por outro lado, ele apontou que a transparência da tecnologia blockchain, que permite o rastreamento de transações, pode ser uma aliada das autoridades para combater a atividade dos atores ilícitos. 

“Existem algumas intervenções que provaram ser eficazes nesse sentido. Em primeiro lugar, é importante que as autoridades tenham as ferramentas e o treinamento necessários para investigar essas atividades. Em segundo lugar, as intervenções governamentais, como as sanções, criam atrito no ecossistema de atividades ilícitas”, explica o especialista.

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Além das autoridades, ele também aponta que as corretoras de criptomoedas também podem ajudar a combater o uso de criptomoedas no crime, por meio de “políticas como Know Your Customer (KYC) e Anti-Money Laundering, que ajudam a aumentar o grau de transparência e responsabilidade em torno das redes blockchain”.

Fentanil será o novo crack no Brasil?

Embora o Fentanil já seja um problema consolidado nos EUA, o Brasil começa a dar indícios de que pode enfrentar um problema semelhante com a droga, o que já preocupa  os agentes de saúde do país. 

O doutor Drauzio Varella jogou luz sobre o problema do fentanil em abril deste ano, e alertou que o “Brasil não pode fechar os olhos para o fentanil como fez com o crack”. 

“Temos que fazer com o fentanil o que não fizemos com a entrada do crack. O crack nos anos 1980 estava lá nos EUA, em Nova York, em Chicago, no meio da população mais pobre, entre os negros. No Brasil, a gente agiu como se aquilo não existisse, não pudemos educar a população, educar as crianças”, disse o doutor em entrevista à Folha de S. Paulo.

“Agora não podemos fechar os olhos, esperar chegar [a droga] e começar a morrer crianças por causa da depressão respiratória provocada pelo fentanil”, acrescentou.

O fentanil já chegou ao Brasil. Em fevereiro deste ano, a Polícia Civil do Espírito Santo, por meio do Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc), apreendeu, pela primeira vez em solo brasileiro, frascos de fentanil durante uma operação contra traficantes em Cariacica, na região metropolitana de Vitória.

Na época, além de apreender quilos de maconha e mistura para cocaína, a polícia também encontrou 31 frascos de fentanil, noticiou a CNN Brasil. Na visão das autoridades, o fentanil poderia ser usado para “batizar” outras drogas, como ecstasy e cocaína, com o intuito de intensificar o efeito das substâncias.

O psiquiatra e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Thiago Marques Fidalgo, explicou à Folha de S. Paulo que o problema do fentanil é que a droga é barata, ao mesmo tempo que tem um efeito extremamente letal: apenas 2 miligramas da substância pode levar uma pessoa à morte. 

“O limite entre a dose que vai causar o barato esperado e a dose que vai levar à morte é muito estreito. É muito fácil você errar a mão”, explica o especialista. 

Como a droga é nova em solo brasileiro, usuários sujeitos ao seu uso podem não ter conhecimento sobre dosagem correta, de tal forma que o risco de overdose é ainda maior.

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