Imagem da matéria: De bilionário a presidiário: Sam Bankman-Fried, o criador da FTX, foi o nome de 2022 do mercado cripto
Fundador da FTX, Sam Bankman-Fried.

As comparações de Sam Bankman-Fried com Bernie Madoff não são exatamente corretas, mas existem algumas semelhanças entre o homem que se tornou sinônimo de crime financeiro e o fundador da FTX, pelo menos na visão de um ex-funcionário da SEC, o órgão que regula o mercado de capitais nos Estados Unidos.

“Madoff foi o presidente da Nasdaq e criou a primeira bolsa eletrônica dos Estados Unidos. Provavelmente, quando Madoff começou as intenções eram boas”, disse ao Decrypt Elliot Lutzker, presidente e sócio da Davidoff Hutcher & Citron.

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Segundo ele, o mesmo talvez poderia ser dito de Bankman-Fried. “Talvez no primeiro ano suas intenções fossem boas, mas neste momento, tudo sobre ele é apenas algo de um criminoso comum.”

A revelação repentina de Bankman-Fried como um “criminoso comum” é impressionante — tanto que ele era o único candidato claro a Personalidade do Ano do Decrypt, por conta do tamanho que ele ganhou na indústria ao longo de todo o ano de 2022. 

Sam e o início da FTX

Bankman-Fried começou em 2013 como estagiário na empresa de trade Jane Street Capital, um prestigiado primeiro trabalho para o estudante do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Ele se formou em 2014 e trabalhou lá em tempo integral até 2017, com foco em fundos de índices (ETFs).

Após um curto período no Centre for Effective Altruism, fundou a sua própria plataforma de negociação: a Alameda Research. Essa empresa foi fundamental para gerar o que se tornaria a fortuna de US$ 26 bilhões de Bankman-Fried e reforçar sua imagem como um pensador, tido por “gênio” do setor cripto por alguns.

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A plataforma de negociação foi aclamada por trades de arbitragem que aproveitaram o famoso “Kimchi premium” da época — estratégia baseada em comprar bitcoin por um preço nos EUA e vendê-lo mais caro na Coreia do Sul.

No início de 2019, Bankman-Fried estava pronto para expandir seu império, fundando a FTX.com em Hong Kong, antes de mudar a sede para as Bahamas. Até o colapso da corretora, ele gastou milhões em marketing colocando seu rosto nas laterais dos edifícios, negociando acordos com a modelo brasileira Gisele Bündchen, o quarterback da NFL Tom Brady, o ator Larry David e o empresário Kevin O’Leary.

Ele também gastou quantias significativas em doações a políticos americanos e cortejando legisladores. Com toda essa exposição, ele costumava oferecer opiniões do tipo “conselheiro de mercado” em threads no Twitter.

Portanto, foi uma reviravolta Shakespeariana quando, no dia 12 de dezembro, um mês depois da FTX entrar com pedido de recuperação judicial e Bankman-Fried renunciar, que ele fosse preso pela polícia das Bahamas. Depois de passar alguns dias na prisão, ele aceitou a extradição para os Estados Unidos, onde é acusado conspiração, lavagem de dinheiro e fraude—bem como acusações civis da SEC e da CFTC.

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No momento, ele está morando com os pais. Conseguiu sair da prisão, em Nova York, após a promessa de um pagamento de US$ 250 milhões de fiança.

“A peculiaridade, a coisa que mais se destaca, é que os verdadeiros bandidos que não aparecem em público e não se manifestam abertamente ou principalmente — eles não se registram na SEC ou como corretores-negociadores para cobrir 1% ou 2% de seus ativos quando 98 ou 99% estão offshore”, analisa Lutzker. “Quando você está tentando ficar fora do radar, não quer se registrar na SEC ou testemunhar no Congresso. Quer dizer, ele estava exposto. É surpreendente que isso tenha demorado tanto para explodir.”

Como as coisas estão caminhando

Grande parte das conversas, memes e especulações nas mídias sociais na sequência da queda de Bankman-Fried vem de pessoas que não o conheciam ou tinham interesse em suas empresas. Difícil é dizer quem não quer falar sobre o CEO da FTX desde sua prisão. 

A Multicoin Capital, uma empresa de capital de risco com sede em Austin, TX, que tinha até US$ 9 bilhões sob gestão em abril, participou da rodada da série B de US$ 1 bilhão da FTX em julho de 2021, quando a empresa teve uma avaliação de US$ 18 bilhões. Em novembro, a empresa, que também liderou a rodada de investimento de US$ 20 milhões na Solana, em 2019, publicou uma longa carta (compartilhada no Twitter pelo trader Soldman Gachs), que detalha a sua exposição ao colapso da FTX. 

Mas quando fizemos pedidos por comentários para o Decrypt, a empresa não quis falar.

Thoma Bravo, fundada pelo bilionário Presidente-Executivo, Orlando Bravo, não respondeu a um pedido de comentário sobre o fundador do que uma vez chamou de “a exchange de criptomoedas mais sofisticada e de ponta do mundo.”

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Os outros que resistem a falar incluem: os investidores iniciais Lightspeed Venture Partners; uma das maiores críticas da empresa, Rep. Maxine Waters( D-CA); e o Senador John Boozman (R-AR), que copatrocinou a Lei de Proteção ao Consumidor de Commodities Digitais (DCCPA), da qual Bankman-Fried tanto gostava.

Para constar, o Decrypt estava agendando sua própria entrevista com Bankman-Fried pouco antes dele ser preso. Em vez disso, então, parecia oportuno rever partes não publicadas de uma entrevista de 2021 quando ele estava sendo nomeado Fundador do Ano, e compartilhou que a FTX havia aumentado seu número de funcionários mais rapidamente do que ele previa.

“O que impulsiona a nossa empresa é o trabalho real, não a gestão em si. A gestão pode ser uma boa multiplicadora de uma parte disso tudo”, disse ele durante uma entrevista em dezembro de 2021. “Mas a coisa mais importante é o trabalho individual real e não queremos empurrar a gestão como uma forma de prestígio à custa das pessoas que fazem o que sabem fazer bem e o que, em última análise, traz valor para a empresa.”

Em meio a quase todas as grandes empresas cripto demitindo funcionários ou congelando contratações após o colapso do projeto Terra em maio, escreveu Bankman-Fried no Twitter a FTX tem “10% mais funcionários do que as outras, mas quando se trata de produção, eu assumiria qualquer uma das responsabilidades deles.” 

Ele até se gabou de que alguns dos desenvolvedores que contratou “foram rejeitados por outras empresas” e “agora produzem mais do que toda a equipe dessa empresa.”

Naquela altura, parecia uma cultura empresarial que valorizava os colaboradores individuais em detrimento dos líderes de equipe e de outras formas de gestão intermediária. Mas agora essas falas parecem ter contribuído para o que o novo CEO da FTX, John Ray III, cunhou como a “falência sem papel” da empresa, durante uma audiência do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, no dia 13 de dezembro.

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Ray chamou a liderança da FTX, incluindo especialmente Bankman-Fried, de “grosseiramente inexperiente e pouco sofisticada.”

O lobby da FTX

Bankman-Fried não deixou sua inexperiência atrapalhar nada, na verdade.

Desde 2021, ele gastou milhões de dólares em doações políticas. Mas ele não se contentou em deixar por isso mesmo — ele se tornou uma figura assídua em Washington, organizando cafés da manhã para legisladores e aparecendo em eventos para realizar tribunais sobre a indústria cripto.

Ao falar com o Decrypt sobre como era operar em torno da incursão de Bankman-Fried no lobby americano, a Diretora Executiva da Blockchain Association, Kristin Smith, ponderou: a FTX nunca fez parte do grupo de lobby cripto.

“Obviamente, Sam pessoalmente passou muito tempo em Washington e tinha uma estratégia bastante agressiva que, francamente, era muito diferente da maneira como o resto da indústria estava abordando as coisas”, disse ela. “E então, você sabe, da minha perspectiva, é um pouco positivo que não tenhamos mais que lidar com ele regularmente.”

Como a FTX não fazia oficialmente parte da Blockchain Association, Smith nem sempre estava na sala quando Bankman-Fried estava construindo influência na capital americana — organizando cafés da manhã com senadores, indo ao happy hour com funcionários do Congresso, organizando reuniões individuais com senadores. Mas ela sabe que surgiu um tópico em comum.

“Houve uma situação em que um grupo de lobistas e defensores se reunia para ter uma sessão de estratégia, e ele apareceu no meio disso e basicamente falou por 45 minutos para nós e depois saiu”, disse Smith. “No meu entendimento, muitas das conversas foram unilaterais. Mas, ao mesmo tempo, acho que as pessoas estavam muito interessadas no Sam. Eles achavam que ele era acessível.”

A marca de acessibilidade de Bankman-Fried transformou-se em uma espécie de espetáculo. Ele dormia em pufes no escritório da FTX e raramente fazia reuniões ou calls sem simultaneamente jogar um jogo no PC, como League of Legends, girar moedas, ou embaralhar cartas.

No entanto, a tolerância para essas peculiaridades se evaporou após FTX. Alguns ouvintes o criticaram pesadamente por estar jogando durante um Twitter Space poucas horas antes de ser preso. 

Durante tudo isso, o pai de Bankman-Fried, professor de direito da Universidade de Stanford, esteve nos bastidores para ajudar em sua defesa e orientá-lo. Um artigo recente no New York Times chamou Joseph Bankman de funcionário pago da FTX que frequentemente voava para a sede da empresa nas Bahamas. A senhora Fried, que construiu uma rede de defesa política, aceitou doações de seu filho.

Seu irmão foi fundamental para orientar seus esforços filantrópicos, administrando o grupo de lobby Guarding Against Pandemics que ele financiou. Bankman-Fried também fundou a FTX Future e construiu um fundo Strong Future, ambos os quais perderam suas equipes de gestão desde o colapso da FTX.

Além de sua família, Bankman-Fried manteve um círculo estreito de conhecidos que preenchia os papéis de liderança em suas empresas. Por um tempo, nove amigos, que se tornaram executivos, moraram com ele em sua cobertura de US$ 30 milhões nas Bahamas. O círculo interno incluía Nishad Singh, ex-diretor de engenharia da FTX, e o cofundador da Alameda e da FTX, Gary Wang. Também incluiu a ex-CEO da Alameda Research, Caroline Ellison, e o Presidente da FTX Digital, Ryan Salame, ambos que cooperaram com as autoridades desde o colapso da empresa. Ellison e Bankman-Fried estavam envolvidos em um relacionamento amoroso.

No ano passado, Singh falou com o Decrypt sobre as qualidades que inicialmente o atraíram com relação a Bankman-Fried, que o convenceu a deixar um emprego no Facebook para se juntar à Alameda Research e depois à FTX. Em retrospectiva, Singh parece estar descrevendo o que atraiu basicamente toda a indústria a Bankman-Fried antes que a ilusão se desfizesse.

“As partes dele que estavam lá na época eram aquele brilho indubitável, seu raciocínio hiper quantitativo e sua capacidade de ver a realidade claramente, numericamente. E eu acho que foi uma coisa muito atraente para mim na época”, disse ele. 

Durante a entrevista de 2021, Singh passou a descrever a magia do Excel de Bankman-Fried e a intensa atenção aos detalhes. 

Tudo agora está em um contraste absurdo e contundente com sua insistência mais recente em entrevistas que ele não combinou os fundos conscientemente, não sabia que a Alameda Research estava pegando fundos de clientes FTX emprestados em uma escala tão gigantesca, e apenas—de forma totalmente mágica—não tinha ideia do que estava acontecendo nas próprias empresas.

*Traduzido por Gustavo Martins com autorização do Decrypt.

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