Imagem da matéria: Stablecoins algorítmicas entram em xeque após colapso da UST
(Foto: Shutterstock)

Na segunda-feira (9), o Banco Central dos EUA, o Federal Reserve (Fed), publicou um relatório que identificava três ativos com riscos de financiamento: fundos específicos de mercado monetário, alguns fundos de título e stablecoins. O setor de stablecoins, segundo o banco central americano, “continua exposto a riscos de liquidez” e está “vulneráveis a corridas [bancárias]”.

Naquele mesmo dia, a stablecoin UST, do ecossistema Terra, perdeu mais de 30% de seu valor durante uma corrida bancária acelerada pela baixa liquidez no principal protocolo de empréstimos Anchor.

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Na quarta-feira (11), a stablecoin havia se afastado ainda mais de seu lastro, enquanto LUNA, o token nativo do Terra, havia perdido basicamente todo o seu valor.

Outras stablecoins descentralizadas, incluindo neutrino (USDN), frax (FRAX), celo dollar (CUSD) e sUDS (SUSD), ficaram abaixo de US$ 9,98 em certo momento à medida que a confiança dos usuários estava sendo colocada à prova.

A pergunta natural é: Seria este o fim das stablecoins algorítmicas?

Lastros alternativos

Stablecoins de primeira geração, como as da Tether e da Circle, mantêm seu valor por meio dos ativos que estão no banco. Toda vez que alguém adquire 1 USDT ou USDC por US$ 1, a Tether ou a Circle pega esse dólar e o armazena para que holders possam sempre resgatar o que têm.

Ao menos, essa é a ideia. Na realidade, diversos outros “equivalentes monetários” e/ou instrumentos de dívida podem estar lastreando as moedas em circulação.

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UST, assim como outras stablecoins algorítmicas (ou “algos”), funciona de forma diferente. Mantém um lastro ao dólar americano por meio de sua relação com outro ativo.

No caso do Terra, para emitir 100 UST, era preciso “queimar” (ou remover de circulação) US$ 100 em LUNA, que possuía um valor oscilante. Para emitir US$ 100 em LUNA, seria preciso destruir 100 UST.

O mecanismo proposto era inteligente. Se o valor da UST no mercado aberto começasse a cair, ainda seria possível resgatá-lo pelo valor total em LUNA. Por exemplo, se a UST estivesse sendo negociada a US$ 0,95 cada, ainda seria possível obter US$ 1 em LUNA. A oportunidade de arbitragem teoricamente manteria o preço estável.

Mas isso não funciona mais, pois LUNA não vale o mesmo que antes. Na época em que as pessoas ainda podiam trocar UST por LUNA, o preço já havia caído ainda mais.

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Sem futuro

“Honestamente, não acredito que exista um futuro para stablecoins agorítmicas”, afirmou Justin Rice, vice-presidente de ecossistemas na Stellar Development Foundation (ou SDF, na sigla em inglês), ao Decrypt. A blockchain Stellar, com foco em pagamentos, é compatível com diversas stablecoins, incluindo USDC.

“O que estamos vendo agora — e não é a primeira vez — é um mecanismo otimista de equilíbrio se desenrolar por conta de respostas humanas naturais a condições de mercado”, explicou.

Segundo Rice, stablecoins algorítmicas já perderam seu lastro antes, mas nunca tanto quanto UST, que tinha uma capitalização de US$ 18 bilhões.

Em abril, neutrino (USDN), uma stablecoin algorítmica ligada à blockchain WAVES, também perdeu seu lastro.

Assim como o Terra, enfrentou acusações de que sua tokeconomia era um mero esquema Ponzi que dependia da crença de que o token nativo da rede só continuaria subindo de preço no longo prazo. Ainda está tentando voltar à sua paridade ao dólar. Esta semana, os problemas no mercado estão atrasando o seu progresso.

Nik Kunkel, ex-líder de serviços de backend da Maker, que criou a stablecoin descentralizada e de sobregarantias DAI, sugeriu que stablecoins não fracassam porque são algorítmicas, e sim porque não existe lastro o suficiente.

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“Stablecoins com garantia parcial fracassaram repetidas vezes”, disse Kunkel ao Decrypt. “Não podem solucionar o problema fundamental das corridas bancárias quando o lastro está sob pressão.”

Rohan Grey, professor de Direito na Universidade de Willamette que ajudou a elaborar legislações que poderá exigir que emissores de stablecoins obtenham um alvará bancário, contou ao Decrypt que isso pode acontecer quando as coisas não estão indo bem no mercado.

“Stablecoins [algorítmicas] são ainda mais dependentes puramente de teorias sobre precificação de garantias do que stablecoins intermediadas”, que incluem as centralizadas, como USDT e USDC. “Então, nesse sentido, acredito que estejam bem mais vulneráveis à volatilidade pró-cíclica de mercado.”

Stablecoins intermediadas, segundo ele, “pelo menos têm uma entidade institucional de governança com seu próprio patrimônio que pode respaldar em uma crise” — apesar de ele e Kunkel compartilharem a preocupação de que stablecoins estão à mercê de uma autoridade central que pode agir de forma desonesta.

Stablecoins centralizadas enfrentaram testes parecidos. USDT lidou com esse tipo de crise em 2017, quando seu preço chegou a US$ 0,91, segundo o CoinMarketCap. Sobreviveu, mas demorou três semanas para voltar para US$ 1.

Agora, é a principal stablecoin por capitalização de mercado — e o terceiro maior criptoativo do mercado, seguido do bitcoin (BTC) e do ether (ETH).

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Intervenção externa

UST pode fazer a mesma coisa, mas não sozinha. “É desafiador que stablecoins algorítmicas mantenham seus lastros quando as coisas oscilam”, disse Rice, “e você precisa depender de intervenções externas para consertar as coisas”.

Do Kwon, criador do Terra, e a Luna Foundation Guard (ou LFG) perceberam que precisariam de intervenções externas. Em uma série de tuítes publicados na quarta-feira (11), Kwon disse que Terra estava buscando por “capital exógeno” em combinação com a implementação de mudanças no protocolo para ajudar a colocar a rede de volta aos eixos.

Ele afirmou que o processo de reconstrução envolveria o uso de um mecanismo de garantias. Em outras palavras, seria algo que serviria de lastro para o valor do Terra em vez de LUNA.

O Terra já tinha avançado nisso, tendo adquirido mais de US$ 3 bilhões em bitcoin (BTC), avalanche (AVAX), terra (LUNA) e terrausd (UST) para usá-los como reserva caso houvesse uma turbulência de mercado. Mas com UST equivalente a seis vezes a esse valor na semana passada, não era uma garantia suficiente. Essas reservas já foram esvaziadas.

Marek Olszewski, cofundador do Celo, tuitou que o sistema de reservas do Terra era a decisão correta, mas que algos poderiam ser “ainda mais estáveis com uma cesta ainda mais diversa de ativos”.

A stablecoin algorítmica da Celo é lastreada em CELO, BTC, ETH, DAI e tokens de crédito de carbono. Porém, também havia caído para US$ 0,96 antes de voltar para US$ 0,99.

Esta parece ser uma ótima oportunidade de aprendizado para todo o ecossistema cripto. Fazer tudo certo nos protocolos exige muita iteração e aprendizado, e com stablecoins algorítmicas não é diferente.

E o mais importante: O recente acontecimento mostra quão importante é lastrear esses tipos de stablecoins com diversos ativos. A iniciativa é parcialmente lastrear UST com BTC logo antes desse acontecimento foi bem-pensada e, sem dúvidas, ajudou a evitar uma perda de lastro ainda maior.

 

Segundo Rice e Kunkel, não existem atalhos para stablecoins descentralizadas, que querem evitar moedas governamentais e há tempos buscam uma forma de fazer isso sem obter garantias completas.

Embora Rice tenha afirmado que projetos de stablecoin possam manter a confiança de usuários por meio de garantias com fiat (moedas fiduciárias) e certificados externos, Kunkel recorreu à transparência de registros públicos em blockchain.

“Uma stablecoin ideal precisa ser sobregarantida e descentralizada”, explicou. “Sobregarantia para dar confiança aos usuários da stablecoin de que irá reter seu valor. Descentralização para que qualquer um possa ver as reservas em blockchain em tempo real e verificar por conta própria que o protocolo é solvente.”

Usuários do Terra podem ver por conta própria que o protocolo não é solvente. Agora, tudo o que precisam é de confiança.

*Traduzido por Daniela Pereira do Nascimento com autorização do Decrypt.co.

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