Imagem da matéria: Mineradores de Ethereum podem 'hackear' a rede para lucrar mais; entenda
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Os mineradores geralmente são os heróis frequentemente esquecidos da blockchain do Ethereum. Eles processam as transações do usuário, adicionam blocos à cadeia e ajudam a manter todo o ecossistema funcionando enquanto competem para resolver quebra-cabeças criptográficos. 

Embora sejam recompensados com 2 ETH (cerca de US$ 4 mil na cotação atual) mais as taxas de transação para qualquer bloco que consigam minerar, eles geralmente podem ganhar mais.

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O problema: para fazer isso, eles precisam mexer em suas transações. 

Bem-vindo ao mundo do MEV, também conhecido como valor extraível do minerador ou, às vezes, valor extraível máximo. A sigla se refere a quanto os mineradores de Ethereum podem ganhar — não simplesmente processando as transações dos usuários e adicionando blocos à cadeia, mas escolhendo o que entra em cada bloco e em que ordem.

Os mineradores têm muito poder neste sentido. Assim como Charlie Noyes, um parceiro da empresa de investimento em criptomoedas Paradigm, escreveu em seu blog em fevereiro, os mineradores podem “incluir, excluir ou reordenar arbitrariamente as transações dentro dos blocos que produzem”.

Mas por que eles se importariam com a ordem das transações? Para capitalizar sobre as oportunidades de arbitragem em plataformas de negociação como a Uniswap

Isso tudo é possível porque o tempo é importante no Ethereum e nos aplicativos de finanças descentralizadas (DeFi) que funcionam no seu protocolo. A rede está constantemente sendo vasculhada por bots que procuram comprar barato em uma plataforma e vender caro em outra antes que os preços se estabeleçam.

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Quando você está procurando arbitragem entre diferentes protocolos, você quer ter certeza de que sua transação passe pela rede da forma mais instantânea possível.

Mas o DeFi — o setor em expansão baseado no Ethereum que permite às pessoas obter empréstimos, ganhar rendimentos ou trocar ativos sem intermediários — muitas vezes entope a blockchain do Ethereum, fazendo com que as pessoas precisem esperar para que suas transações sejam validadas.

Esse é um grande risco para as trocas urgentes. Se você está um bloco atrasado, alguém pode já ter aproveitado a oportunidade de arbitragem.

Você pode contornar isso pagando propositalmente uma taxa maior de transação (sabendo que você lucraria muito na própria transação para compensar a diferença). Uma vez que os mineradores — ou, na verdade, o software que eles executam — têm poder de decidir qual transação vai em qual bloco, eles vão priorizar aquelas que pagam mais e lucrar a taxa maior.

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E isso pode ser bom. Os bots de arbitragem, que na maioria das vezes são administrados por traders em vez de mineradores, podem ajudar a equilibrar os preços nos mercados, resultando no que Noyes chama de “transação MEV benigna”.

Isso se torna um problema quando esses bots “reconhecem a negociação de um usuário antes de ela ser executada e ‘ensanduicham’ sua transação entre uma ordem de compra e venda própria”, escreveu Noyes. Ou seja, os bots podem ver que a negociação vai render muito dinheiro para alguém, então eles tentam fazer isso antes. No fim, é o usuário que se dá mal. 

Esses bots de arbitragem são especialmente problemáticos quando são administrados pelos próprios mineradores, pois geram um conflito de interesses.

Noyes descreveu a estratégia em termos preocupantes. “MEV não é apenas uma curiosidade”, escreveu. “Esses pequenos jogos financeiros criam ondas de incentivo, uma cadeia sinuosa de causa e efeito que deve ser seguida para ver o contágio.”

Uma coisa a que isso pode levar, apontou Noyes, é uma quebra de consenso, tornando-se muito atraente para os mineradores tentarem mexer com blocos que já foram criados em busca de oportunidades de arbitragem — embora ele tenha notado em fevereiro que isso ainda não estava acontecendo.

Conforme escreveu nesta semana o analista Saneel Sreeni da Dragonfly Research, o caso ainda é principalmente hipotético:

“Os lucros do MEV estão se tornando uma parte cada vez maior das recompensas econômicas dos mineradores, tornando a ameaça de ataques de bandidos do tempo (ofensiva que concentra poder computacional na tentativa de minerar novamente blocos antigos) e reorganizações mais provável. Também significa que teoricamente poderia ser possível subornar os mineradores para reorganizar a cadeia”.

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Reorgs, ou reorganizações, ocorrem quando surgem cadeias concorrentes na blockchain à medida que os blocos são minerados ao mesmo tempo. Às vezes, os mineradores podem construir em cima de um bloco antes de notar que um outro bloco paralelo também está lá. Nesses casos, os clientes de software irão essencialmente voltar e decidir qual dessas cadeias é a correta. 

Reorgs de Ethereum que acontecem em torno de um bloco de profundidade são bastante comuns. E, como o colega de Noyes, Georgios Konstantopoulos, e o criador do Ethereum Vitalik Buterin escreveram essa semana em um artigo que analisa um ataque hipotético aos protocolos DeFi via reorgs, mesmo as reorganizações de dois a cinco blocos de profundidade não são tão raros ou maliciosos.

Apesar disso, as reorganizações têm vários efeitos negativos na rede, afirmam Konstantopoulos e Buterin: elas criam mais custos para os nodes (o hardware que roda a blockchain), fazem com que o usuário tenha que esperar mais tempo para que as transações sejam confirmadas e tornam os ataques à rede mais prováveis.

Todos os três especialistas concordam que há um problema potencial com os mineradores jogando um jogo que os faz não escolher a cadeia mais longa, mas apoiar as cadeias concorrentes para lucrar com o MEV.

Konstantopoulos e Buterin referem-se à mineração de reorganização como “miopicamente racional”. Executá-la funcionaria a curto prazo, mas ameaça a confiança na rede a longo prazo, desvalorizando assim o próprio ether. O que, vale lembrar, não quer dizer que não possa acontecer.

Eles acreditam, no entanto, que o abandono planejado do Ethereum do consenso de prova de trabalho, em que os mineradores criam novos blocos, para a prova de participação, em que os validadores depositam seu ETH para ter o direito de criar novos blocos, resolverá esse problema.

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Isso porque, com quase 200 mil validadores já participando do Ethereum 2.0, a rede está muito mais distribuída. Quando combinada com a seleção pseudo-aleatória de milhares de validadores para atestar cada bloco, há poucas oportunidades para os atores egoístas concentrarem seus recursos. 

“Mesmo os reorgs de um único bloco são extremamente difíceis, porque um invasor que controla apenas alguns validadores não tem como derrotar a maioria honesta de milhares de atestadores”, escreveram Buterin e Konstantopoulos.

A solução, eles disseram, é que o Ethereum avance com a fusão e trabalhe o mais rápido possível, mas com segurança.

Hasu, pseudônimo por trás de um pesquisador que escreveu sobre esse problema, disse ao Decrypt que, embora a fusão com o ETH 2.0 essencialmente torne essas reorganizações muito mais difíceis, não terá muito efeito no problema do MEV.

Questionado se a atualização resolverá o MEV, Hasu disse: “Apenas no sentido muito limitado de que as reorganizações de curto prazo se tornam mais difíceis, mas não estamos vendo isso no Ethereum hoje de qualquer maneira”.

Isso quer dizer que o MEV ainda será um problema, mesmo que os mineiradores não existindo mais. Como Hasu apontou, “No ETH 2.0 [prova de participação], os produtores de blocos dos próximos 12 minutos são conhecidos com antecedência e poderiam trabalhar juntos melhor do que os mineradores conseguiriam extrair um MEV multibloco.”

Por outro lado, Hasu sugeriu que provavelmente isso não será uma grande preocupação, porque é um problema principalmente teórico. Mas se a reorganização da rede começar a acontecer, não culpe os mineradores.

*Traduzido e editado com autorização da Decrypt.co

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