As apreensões de criptomoedas usadas em crimes pela Polícia Federal bateram recorde em 2025, chegando a R$ 71 milhões, segundo dados obtidos pela Folha de S. Paulo via Lei de Acesso à Informação.
O valor é mais de seis vezes maior do que o registrado em 2024 e mostra como ativos digitais passaram a aparecer com mais frequência em investigações sobre lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, crimes ambientais, violações de direitos humanos e golpes online.
O número, porém, representa apenas uma fração do dinheiro que circula em esquemas ilícitos. De acordo com a reportagem, a própria PF reconhece que o levantamento tem escopo limitado, já que não há registros anteriores a 2023 e os dados não incluem apreensões feitas pelas polícias civis.
Além disso, as investigações mostram que quadrilhas movimentam valores muito superiores aos apreendidos. Em um dos casos citados pelo jornal, um esquema de lavagem de dinheiro teria movimentado R$ 12,2 bilhões entre 2017 e 2020.
Nos últimos dois anos, a PF encontrou Bitcoin e stablecoins em apurações sobre ataques hackers contra a infraestrutura do Pix no Banco Central, que desviaram R$ 1,5 bilhão, além de operações contra grandes lavadores de dinheiro e redes internacionais de tráfico humano.
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A alta nas apreensões acompanha uma tendência global. Segundo a Chainalysis, endereços ligados a atividades ilícitas receberam ao menos US$ 154 bilhões em criptomoedas em 2025, um salto de 162% em relação ao ano anterior. Ainda assim, a própria empresa destaca um dado importante para dimensionar o fenômeno: essas transações representaram menos de 1% do volume total movimentado em cripto no mundo.
Para criminosos, as criptomoedas costumam ser usadas para enviar valores ao exterior, pulverizar recursos entre carteiras e tentar dificultar a identificação da origem do dinheiro. Porém, especialistas reforçam que o uso de cripto não facilita necessariamente a lavagem do dinheiro, já que é possível rastrear os recursos, trabalho que a própria Chainalysis faz para conseguir realizar seus levantamentos.
Esse ponto é central para evitar uma leitura distorcida. O crescimento do uso criminoso não significa que criptomoedas sejam usadas principalmente para crimes. É possível que o trabalho da PF esteja mais efetivo no rastreio desses recursos, por isso o aumento dos números de apreensão.
Stablecoins ganham destaque
A mudança no tipo de ativo usado também alterou o desafio das investigações. Segundo dados da Receita Federal, em 2020 o Bitcoin respondia por cerca de metade das operações com cripto no Brasil. Hoje, representa menos de 10%. Desde 2021, o ativo mais movimentado no país é o USDT, stablecoin emitida pela Tether e atrelada ao dólar.
Conforme mostrou o Portal do Bitcoin, com base em dados da Receita Federal, o volume de stablecoins no Brasil cresceu 480 vezes em seis anos e chegou a R$ 361 bilhões em 2025. Em dezembro de 2025, por exemplo, as stablecoins movimentaram R$ 29,4 bilhões, contra R$ 2,6 bilhões do BTC. No ano passado, o USDT respondeu por 90% do volume de todas as stablecoins no país.
A preferência por stablecoins tem explicação econômica. Para usuários legítimos, elas servem como forma de acessar dólar digital, proteger patrimônio da volatilidade cambial, fazer remessas e transferir recursos entre plataformas. Para criminosos, porém, essas mesmas características — liquidez, velocidade e aceitação global — também podem ser atrativas.
O delegado Vytautas Zumas, da Polícia Civil do Distrito Federal, disse à Folha que a velocidade das transações em USDT dificulta o trabalho das autoridades. No Bitcoin, uma nova transação leva pelo menos cerca de dez minutos para ser confirmada, o que dá algum tempo para análise e reação. Em redes usadas por stablecoins, a liquidação pode ocorrer em segundos.
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Ao mesmo tempo, a própria natureza pública de muitas blockchains também pode ajudar investigações. Transações com Bitcoin, por exemplo, ficam registradas em uma base pública e permanente. Embora criminosos tentem mascarar rastros com ferramentas específicas, agentes especializados conseguem seguir fluxos, pedir quebras de sigilo a corretoras e identificar usuários quando os ativos passam por plataformas reguladas.
Esse avanço técnico já aparece na estrutura das polícias. Em 2022 foi criado no Ministério da Justiça o Núcleo de Operações com Criptoativos, enquanto a PF estruturou uma unidade especial para investigação de crimes cibernéticos.
Hoje, quase todos os estados contam com células dedicadas a crimes digitais, cenário bem diferente do encontrado por Zumas entre 2020 e 2023, quando 90% dos 212 policiais ouvidos em sua pesquisa disseram não saber nada sobre criptomoedas.
A leitura final é de contraste. Criptomoedas estão, sim, sendo usadas por criminosos e os valores apreendidos pela PF mostram que esse problema cresceu. Mas os dados também mostram que o uso ilícito representa apenas uma pequena parcela de um mercado legítimo, composto por investidores, empresas, remessas, stablecoins, infraestrutura financeira e outras aplicações legais.
O desafio das autoridades é justamente acompanhar essa expansão sem tratar toda a tecnologia como sinônimo de crime.
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