Corinthians, Flamengo, Cruzeiro e Atlético Mineiro são alguns dos clubes brasileiros de futebol que nos últimos meses lançaram produtos chamados fan token que, grosso modo, são um tipo de criptomoedas. Mas o que é um fan token?

Como o próprio nome sugere, o fan token é criado especialmente para uma torcida e garante a seus detentores benefícios exclusivos determinados pelo próprio time. 

Os benefícios podem ser descontos em produtos oficiais e ingressos de partidas, concorrer a prêmios, participar de decisões do time através de votação, e assim por diante.

Dentro das diferentes categorias de criptomoedas, o fan token se enquadra nos tokens de utilidade, o que significa que seu intuito principal é ser utilizado como meio de acesso a serviços e bens da “vida real”.

Por essa razão, o fan token não tem como objetivo gerar retorno financeiro e deve ser visto como uma forma de um torcedor apoiar seu clube.

Definindo Fan Token

“Fan tokens são uma espécie de programa de sócio torcedor 2.0”, explica ao Portal do Bitcoin Daniel Coquieri, CEO da empresa de tokenização de ativos Liqi.

“Um investidor jamais deveria comprar um fan token com uma expectativa de valorização de um ativo, porque ele não tem essa característica. Ele pode valorizar? Pode. Mas é puramente especulação”. 

Embora o fan token não seja um ativo financeiro, ele é um instrumento que garante uma fonte de receita para um clube, ao mesmo tempo que cria uma nova forma do torcedor interagir e apoiar seu time.

Um fan token geralmente é criado dentro de uma blockchain que já existe no mercado. A mais comum de todas é a rede Ethereum, cujo ecossistema oferece um padrão para a criação de tokens chamado ERC-20. 

A rede é utilizada pela Socios.com da Chiliz (CHZ), atualmente a principal emissora de fan tokens do mundo. Inclusive, a Socios.com lançou na última terça (19) o fan token do Flamengo (MENGO), que estreou quebrando recorde mundial ao vender 1 milhão de tokens em apenas 12 minutos.

O grupo também está por trás das criptomoedas de times como Barcelona, Paris Saint-Germain, Juventus, além de levar o modelo de fan token para outras modalidades como e-sports, UFC e Fórmula 1.

Conhecer a plataforma emissora é importante porque será através dela que o torcedor poderá reivindicar as vantagens do token, um processo que não é automático. Por exemplo, se o usuário compra no Mercado Bitcoin o fan token do Corinthians, ele deve acessar a plataforma do Socios.com para ter acesso aos benefícios.

As diferenças entre os tokens de torcedores

É importante fazer uma distinção entre os dois produtos hoje no mercado: tokens de clubes baseados no mecanismo de solidariedade da Fifa e que garantem um retorno financeiro para o detentor — como é o caso dos tokens do Vasco, Cruzeiro e em breve Coritiba e Santos — não são considerados fan tokens comuns porque não são tokens de utilidade.

O clube carioca Vasco da Gama estreou o segmento no Brasil ao tokenizar, através do Mercado Bitcoin, os direitos do mecanismo de solidariedade da Fifa, que remunera os clubes toda vez que um atleta da sua categoria de base é negociado no futuro.

Desse modo, os detentores dos tokens baseados nesta modalidade, ganham parte dos lucros do clube a cada contratação de um jogador. 

No caso do Vasco, o token faz parte do FuteCoins, produto criado pelo MB Digital Assets do grupo 2TM. Na próxima terça-feira (26), a corretora lança o Token da Vila que vai oferecer aos torcedores do Santos exposição ao mecanismo de solidariedade do clube. Na cesta de jogadores que o token representa está o craque Neymar Jr., com uma participação de 3,6%.

Bruno Milanello, executivo de novos negócios do Mercado Bitcoin, explica como acontece os repasses dos jogadores ao seu time de origem.

“O clube tem direito a uma porcentagem da venda de jogadores formados em sua base. O percentual pode variar de acordo com os anos passados no clube e a idade do jogador na época, podendo chegar até 5% do valor de uma transferência futura. Em relação aos benefícios, o FuteCoin distribui os valores, proporcionalmente aos detentores do ativo, conforme o pagamento recebido decorrente da transferência de um jogador”.

Coquieri, da Liqi, empresa que está por trás dos tokens do Cruzeiro e Coritiba e que já planeja parcerias com outros quatro clubes brasileiros, define a diferença:

“Diferente dos tokens de utilidade, essa categoria prevê um potencial retorno financeiro para o investidor que, ao comprar o token, adquire um direito de receber uma porcentagem da receita futura do clube sobre o mecanismo de solidariedade. Ou seja, toda vez que um jogador que o clube formou é vendido, ele recebe parte dessa transação”.

O Cruzeiro, por exemplo, tem direito de receber até 5% do valor da negociação de jogadores formados na sua base. No caso do clube, 40% do total recebido pelo mecanismo de solidariedade será destinado aos detentores do Cruzeiro Token. Se nos próximos seis anos o time espera receber R$ 19,8 milhões por meio dessa fonte de renda, R$ 7,9 milhões vão para os torcedores.

“No caso da Liqi, existe toda uma estruturação jurídica onde o clube cede o direito de parte dessa receita para o token no blockchain, e consequentemente, quem comprou o token tem direito a essa receita. Existe um contrato, um instrumento jurídico registrado em cartório para dar valor ao ativo que está lastreado no token”, explica Coquieri.

Quais são os riscos do fan token?

Embora cada fan token tenha suas características específicas como exemplificado anteriormente, eles não deixam de ser uma criptomoeda negociada livremente no mercado e que como tal, reage às oscilações de preço como qualquer outro ativo.  

Entre os riscos associados ao próprio mercado de criptomoedas está o efeito manada das criptomoedas que, em alguns momentos, se comportam de maneira parecida. Por exemplo,  se o bitcoin é proibido na China e sua cotação desaba, existe uma grande chance do restante das criptomoedas também terem seus preços afetados.

Os acontecimentos do mundo real também poderão influenciar o preço da moeda. Por exemplo, quando surgiu o rumor de que o Messi entraria para o Paris Saint-Germain, o fan token PSG disparou 40%. Mas o efeito, vale lembrar, acontece nas duas direções — quando o time francês perdeu a Champions League em abril, o token desabou 20%.

Dentro do universo das criptomoedas também existe o risco legal das operações, principalmente para ativos que flertam com as características de valores mobiliários aos olhos dos reguladores, por isso é importante checar e entender o projeto com clareza antes de investir.

No entanto, os fan tokens comuns não devem enfrentar este problema, conforme explica Daniel Coquieri: “Os fan tokens não são considerados ativos de valor mobiliário que seria regulado pela CVM aqui no Brasil. Estão na categoria de utility token, você compra o token para usá-lo para algo. É importante o investidor entender que isso não é um produto de investimento”.

“Estamos ainda no início desse ciclo”, complementa Milanello. “Tudo é muito recente no mundo de cripto e mais recente ainda nesse mundo de fan tokens. O engajamento pode ganhar muito mais corpo, bem como uma ampliação da utilidade para os fãs e torcedores que possuam os tokens”.