Em momentos de forte volatilidade do Bitcoin, tentar adivinhar o fundo exato costuma ser menos útil do que entender quais sinais o mercado está emitindo. Para David Lawant, head de research da Anchorage Digital, a leitura do preço hoje exige olhar uma combinação de fatores: macroeconomia, fluxo por exchange, comportamento de investidores americanos, profundidade do livro de ofertas e indicadores históricos de sentimento e valuation.
A razão é que o mercado de Bitcoin ficou mais complexo. Se no passado bastava acompanhar o mercado à vista, os futuros e alguns fluxos de mineradores, hoje a formação de preço passa por ETFs, opções, derivativos mais sofisticados, tesourarias corporativas como a Strategy, investidores institucionais e correlação maior com ativos tradicionais.
“Quando você vê esse tipo de movimento, quase nunca é um fator só. Normalmente você tem mais de uma coisa fazendo diferença no processo de formação de preços”, afirmou Lawant, em entrevista exclusiva ao Portal do Bitcoin.
O tema conversa com a análise da corretora MB | Mercado Bitcoin, publicada no MB Explica desta semana — conteúdo educacional enviado semanalmente aos clientes. Segundo a empresa, quatro forças estão pressionando o Bitcoin no momento: desaceleração dos ETFs, venda da Strategy, disputa de capital com inteligência artificial e cenário macroeconômico instável. Segundo o MB, os ETFs de Bitcoin completaram quatro semanas consecutivas de saídas, perdendo praticamente os mesmos US$ 5 bilhões que haviam entrado na sequência anterior de alta.
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Confira abaixo os cinco indicadores que ajudam a entender o momento atual do Bitcoin:
Correlação do Bitcoin com Nasdaq e S&P 500
O primeiro indicador destacado por Lawant é a correlação do Bitcoin com índices de ações dos Estados Unidos, especialmente Nasdaq e S&P 500. A ideia é simples: quanto maior a correlação, mais o preço do Bitcoin tende a se comportar como um ativo de risco tradicional, reagindo a juros, inflação, liquidez global, tecnologia e apetite por risco.
Lawant afirma que prefere observar janelas de 60 a 90 dias. Segundo ele, prazos muito curtos geram ruído, enquanto períodos longos demais podem esconder mudanças recentes. Na leitura do executivo, a correlação do Bitcoin com esses índices está relativamente alta em comparação com o histórico, em alguns momentos acima de 0,5.
“Isso diz para mim que macro continua sendo um fator muito importante aqui no processo de formação de preço”, disse.
Essa leitura ajuda a explicar por que o Bitcoin vem sofrendo mesmo quando não há uma notícia específica negativa sobre a rede. O mercado está em um ambiente mais “risk off”, com investidores reduzindo exposição a ativos de maior risco enquanto monitoram inflação, política monetária, geopolítica e grandes ofertas de ações nos EUA.
Para o investidor, a correlação com Nasdaq e S&P 500 funciona como um termômetro do quanto o Bitcoin está sendo negociado por sua tese própria ou simplesmente acompanhando o humor global. Se a correlação continuar alta, uma recuperação sustentável tende a depender também de melhora no cenário macro.
CVD por exchange
O indicador preferido de Lawant para entender a pressão de curto prazo é o CVD por exchange. CVD é a sigla para Cumulative Volume Delta, uma métrica que tenta medir, operação por operação, se há mais agressão compradora ou vendedora no mercado.
Na prática, quando uma ordem de compra tira liquidez do livro de ofertas, ela entra como pressão de compra. Quando uma ordem de venda faz isso, entra como pressão vendedora. Ao somar esse comportamento em diferentes exchanges, o analista consegue ver de onde está vindo a força dominante do mercado.
“Você adiciona isso trade by trade, para todas as exchanges, e começa a ver um pouquinho quais exchanges estão fazendo pressão de venda e quais exchanges estão fazendo pressão de compra”, explicou Lawant.
Na análise feita por ele, a Binance concentrava a maior pressão vendedora em volume absoluto, com cerca de 6.500 bitcoins de venda líquida em 36 horas, algo próximo de US$ 500 milhões pelos preços citados na entrevista. Mas o ponto mais importante era que o movimento não havia começado na Binance. Segundo Lawant, a pressão vendedora apareceu primeiro nas exchanges americanas, especialmente na Coinbase.
Isso é relevante porque a Coinbase costuma ser menor do que a Binance em volume global. Por isso, quando aparece liderando a pressão de venda, o sinal sugere que o fluxo americano está pesando mais do que o normal.
“É raro a Coinbase ser a líder, tanto em pressão de compra quanto de venda”, afirmou Lawant. “Tudo isso indica para mim que tem um componente importante aqui de flow americano. Varejo americano, ETF americano, que acho que está pesando bastante no preço.”
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O MB reforça essa leitura ao citar que, embora a Binance concentre o maior volume, a pressão vendedora do Bitcoin começou na Coinbase, com vendas superando plataformas como OKX e Bybit. Para o relatório, esse movimento se conecta à disputa por capital com grandes IPOs de empresas ligadas à inteligência artificial, como SpaceX, OpenAI e Anthropic.
Na prática, o CVD por exchange ajuda a responder uma pergunta essencial: quem está vendendo? Se a pressão vem de exchanges americanas, ETFs e varejo dos EUA podem estar no centro do movimento. Se vem de plataformas offshore, a leitura pode ser outra, mais ligada a derivativos, alavancagem ou traders globais.
Livro de ofertas
O order book skew, ou inclinação do livro de ofertas, é outro indicador usado por Lawant para medir se a pressão vendedora está se esgotando. Ele compara o volume de ordens de compra e venda próximas ao preço atual, em uma faixa curta, como 0,5% ao redor do preço médio.
Quando o preço cai e o livro continua sendo preenchido por novas ordens de venda, isso indica que a pressão ainda não acabou. Mas, se as vendas começam a ser absorvidas e o lado comprador passa a aparecer com mais força, o indicador pode sinalizar uma possível exaustão dos vendedores.
“Quando você começa a ver o preço cair, você vê muito claro que começa a existir uma pressão de venda no order book”, disse Lawant. “Se você não tem novas ordens de venda vindo, normalmente o order book começa a ficar mais para o lado de compra.”
Foi esse sinal que chamou atenção do executivo perto da região de US$ 60 mil. Segundo ele, quando o Bitcoin se aproximou desse patamar, começou a aparecer uma pressão compradora mais forte, inclusive de investidores institucionais.
“Quando você chega perto ali do nível de 60 mil, começa a ver uma pressão compradora muito mais forte”, afirmou.
Isso não significa que o fundo está garantido. O próprio Lawant ressalta que, em momentos de mercado muito volátil, nenhum indicador é perfeito. Mas o order book skew ajuda a observar se os vendedores continuam dominando ou se compradores começam a defender determinados níveis de preço.
Na avaliação do executivo, a faixa entre US$ 60 mil e US$ 80 mil vinha sendo a principal banda de negociação do Bitcoin nos últimos meses. O problema é que o ativo passou a testar a parte inferior dessa faixa. Se perdesse a região de US$ 59 mil a US$ 58 mil, Lawant vê risco de um cenário mais próximo de capitulação.
“Se a gente perder esse patamar dos 59, 58 mil, a gente pode entrar num cenário mais próximo de capitulação”, disse. “A minha impressão é que tem um montante de alavancagem relativamente forte montado, esperando que o Bitcoin vai manter essa banda.”
Para o investidor, o order book skew é um indicador de curto prazo. Ele não diz se o Bitcoin está barato ou caro no longo prazo, mas ajuda a entender se há liquidez compradora suficiente para segurar uma região de preço.
MVRV Z-Score
O MVRV Z-Score, destacado pelo MB, é um indicador mais estrutural. Ele mede a distância entre o valor de mercado do Bitcoin e o valor realizado, que funciona como uma estimativa do preço médio pago pelos investidores ao longo do tempo.
Quando essa distância fica muito alta, o mercado costuma estar em euforia. Quando fica muito baixa, pode indicar capitulação, porque muitos investidores passam a vender com prejuízo. Historicamente, leituras acima de 7 no MVRV Z-Score coincidem com regiões de forte euforia, enquanto valores abaixo de 0 aparecem em momentos de pânico extremo.
No ciclo atual, porém, o MB aponta uma diferença importante: quando o Bitcoin atingiu a máxima de US$ 126 mil em outubro, o indicador chegou apenas perto de 3. Isso sugere que o mercado não entrou em uma euforia comparável à dos grandes topos anteriores.
Hoje, o MVRV Z-Score está próximo de 0,35, segundo o relatório. Essa leitura passa duas mensagens. A primeira é que o Bitcoin entrou em uma região historicamente interessante para acumulação. A segunda é que ainda há espaço para queda antes de uma zona clássica de capitulação.
De acordo com estimativas do time de research do Mercado Bitcoin, a zona mais provável para formação de fundo, com base no MVRV, estaria entre US$ 48 mil e US$ 54 mil. O próprio relatório ressalta, porém, que comprar quando o MVRV fica abaixo de 0,35 historicamente gerou bons pontos de entrada, mesmo sem acertar o fundo exato.
Dentro dessa mesma lógica de valuation e fluxo regional, Lawant também acompanha o Coinbase Premium, especialmente em formato de Z-score. O indicador compara o preço do Bitcoin na Coinbase com o preço em outras exchanges. Quando o prêmio fica muito negativo, pode indicar que investidores americanos estão vendendo com mais força. Quando fica positivo, pode sugerir maior demanda dos EUA.
Na leitura recente de Lawant, o Coinbase Premium estava em um nível raro para o ano, reforçando a ideia de que a Coinbase liderava parte da pressão vendedora.
O MVRV e o Coinbase Premium olham dimensões diferentes do mercado. O MVRV ajuda a entender se o preço está historicamente esticado ou descontado em relação ao custo médio dos investidores. O Coinbase Premium ajuda a identificar se o investidor americano está comprando ou vendendo de forma mais agressiva. Juntos, eles ajudam a separar oportunidade de longo prazo de pressão de curto prazo.
Índice de Medo e Ganância
O Fear & Greed Index, ou Índice de Medo e Ganância, é um termômetro de sentimento. Ele mede o humor do mercado em uma escala de 0 a 100. Quanto mais perto de 0, maior o medo. Quanto mais perto de 100, maior a ganância.
Segundo o MB, a queda recente levou o indicador para a casa dos 12 pontos, novamente em zona de medo extremo. Em geral, essas regiões costumam aparecer quando investidores vendem por pânico, não necessariamente por uma avaliação racional dos fundamentos do Bitcoin.
Para quem olha o mercado com horizonte de longo prazo, zonas de medo extremo podem oferecer boas oportunidades de entrada. Mas o relatório faz uma ressalva importante: extremos de sentimento nem sempre coincidem exatamente com fundos e topos.
No ciclo anterior, por exemplo, o fundo do Bitcoin ocorreu em novembro de 2022, quando o Fear & Greed estava em 21 pontos. O menor nível do indicador, de 6 pontos, havia sido registrado cinco meses antes. O mesmo vale para a euforia. Quando o Bitcoin atingiu seu recorde em outubro de 2025, o índice marcava 71 pontos, enquanto o pico de ganância, de 94 pontos, havia ocorrido quase um ano antes.
Isso significa que o Fear & Greed não deve ser usado como gatilho isolado de compra ou venda. Ele funciona melhor como complemento. Quando o indicador entra em medo extremo ao mesmo tempo em que o MVRV se aproxima de zonas historicamente atrativas e o order book começa a mostrar comprador defendendo preço, a leitura fica mais consistente.
A principal mensagem do MB é que os indicadores não são “bola de cristal”. Eles ajudam a identificar se o mercado está caro ou barato, dominado por euforia ou medo, pressionado por fluxos institucionais ou por varejo, mas não eliminam a incerteza.
Lawant faz avaliação semelhante. Para ele, em um mercado com tantas variáveis mudando ao mesmo tempo, o mais importante é acompanhar os dados e reagir ao contexto, em vez de tentar prever o fundo com precisão.
“Quando o mercado está do jeito que está, o negócio mais importante é tentar olhar o que está acontecendo e reagir rápido, dado o contexto e os indicadores que você está vendo, do que tentar prever”, afirmou.
No fim, a leitura conjunta desses indicadores forma um mapa do Bitcoin. A correlação mostra o peso do macro. O CVD por exchange indica de onde vem a pressão. O order book skew revela se há compradores absorvendo a queda. O MVRV Z-Score mostra se o preço entrou em uma região historicamente interessante. O Coinbase Premium aponta o comportamento dos investidores americanos. E o Fear & Greed mostra se o mercado está agindo por pânico ou euforia.
Nenhum deles crava sozinho o próximo movimento do Bitcoin. Mas, juntos, ajudam a responder a pergunta que domina o mercado em momentos de queda: estamos diante de uma oportunidade de acumulação ou ainda falta uma capitulação mais forte?
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