As stablecoins deixaram de ser apenas um produto do mercado cripto e estão caminhando para se tornar uma nova infraestrutura global de pagamentos. Essa foi a principal leitura de um painel realizado na terça-feira (12), em Nova York, durante a Digital Assets Conference (DAC), evento do MB | Mercado Bitcoin.
O painel, mediado pelo diretor de vendas do MB Thiago Fagundes, reuniu Andres Kim, líder de expansão regional da Tether, e Emanuele Rossi, head de stablecoins da Anchorage.
Rossi foi incisivo e definiu as stablecoins como “uma forma melhor de dinheiro”. Segundo ele, esses ativos são “dinheiro para a era da internet” e devem repetir, no sistema financeiro, o tipo de transformação que computadores, WhatsApp e internet provocaram em atividades tradicionais do dia a dia.
Para o executivo da Anchorage, a mudança não deve acontecer “de zero a cem”, mas a direção já está clara: stablecoins tendem a se integrar cada vez mais a pagamentos, remessas, operações internacionais, tokenização e serviços financeiros digitais.
A discussão partiu de um cenário de crescimento acelerado. Segundo dados apresentados no painel, o valor de mercado das stablecoins saiu de cerca de US$ 130 bilhões no início de 2024 para aproximadamente US$ 320 bilhões em 2026. Além disso, esses ativos teriam movimentado US$ 33 trilhões em transações em 2025, volume superior ao de Visa e Mastercard combinadas.
Brasil lidera na América Latina
Para Andres Kim, da Tether, um erro comum é tratar todos os mercados como se usassem stablecoins da mesma forma. Segundo ele, cada país adota esses ativos de acordo com suas necessidades financeiras locais. No caso da América Latina, o Brasil aparece como o principal mercado em volume, com destaque para pagamentos e transferências internacionais.
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“O driver número um no Brasil é cross-border [transações transfronteiriças]”, afirmou Kim, ao comparar a dinâmica brasileira com outros países da região. Na Argentina, segundo ele, o uso é mais voltado à reserva de valor e remessas. No México, o principal motor são as remessas.
Na Venezuela, o comportamento se aproxima do argentino, com busca por proteção de valor e oportunidades de arbitragem. Já na Colômbia, a arbitragem aparece como o principal caso de uso.
A leitura reforça uma diferença importante, de que stablecoins não são apenas “dólares digitais” usados por investidores para negociar criptomoedas. Em mercados emergentes, elas funcionam como alternativa para preservar valor, fazer pagamentos internacionais, reduzir fricções de câmbio e conectar economias locais a fluxos financeiros globais.
Rossi também destacou três grandes usos para stablecoins: negociação e especulação em ativos digitais, remessas e pagamentos internacionais, e dolarização em países sujeitos a inflação elevada ou instabilidade monetária. Na avaliação dele, tanto usuários de varejo quanto instituições buscam resolver problemas parecidos, ainda que em escalas diferentes.
A Anchorage, explicou Rossi, atua como uma espécie de habilitadora institucional desse mercado. Por ser um banco regulado federalmente nos Estados Unidos, a empresa trabalha com gestoras, hedge funds, empresas de pagamento e fintechs interessadas em usar stablecoins em suas operações. Ele citou conversas com grandes companhias de pagamentos, como a Western Union, e com empresas que querem oferecer contas em dólar digital a clientes em mercados locais.
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Regulação acelera entrada de bancos e grandes empresas
A regulação foi tratada como um ponto central para a próxima fase das stablecoins. Rossi afirmou que, nos Estados Unidos, a Lei Genius e a futura Lei Clarity devem definir o que será considerado uma stablecoin adequada para integração profunda com o sistema financeiro tradicional.
Para ele, a clareza regulatória está abrindo as portas para que bancos, fintechs, empresas de pagamento e grandes corporações passem a estudar formas de incorporar dólares digitais em suas operações.
“Regulação é tudo nos Estados Unidos”, disse Rossi. Segundo ele, após o avanço das discussões regulatórias, a demanda de instituições interessadas em stablecoins cresceu de forma intensa.
“Todos os tipos de instituições financeiras, corporações tradicionais, fintechs, empresas de pagamento e outras estão batendo à nossa porta para aprender como usar stablecoins.”
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Kim também apontou a regulação como fator decisivo, mas disse que ela não é o único obstáculo. Para ele, educação e interoperabilidade são igualmente importantes. O executivo comparou a dificuldade de explicar stablecoins apenas de forma teórica a tentar ensinar futebol a um brasileiro por meio de um livro. “Educação é uma grande parte disso”, afirmou.
Na visão do executivo da Tether, a adoção real acontece quando pessoas e empresas entendem o uso prático da tecnologia. Ele também rejeitou a separação rígida entre finanças tradicionais e finanças descentralizadas. Para Kim, a blockchain deve ser vista como uma tecnologia que empresas de todos os setores podem integrar, assim como todas as companhias acabaram incorporando computadores e internet em suas operações.
“Stablecoins são pagamentos, da forma mais eficiente”, afirmou Kim. Segundo ele, qualquer negócio, seja uma padaria, um táxi ou uma escola de música, termina lidando com pagamentos em algum momento. A adoção em massa, porém, depende de uma experiência simples, sem excesso de etapas ou interfaces feitas apenas para engenheiros.
Esse ponto levou à ideia de que, no futuro, stablecoins podem se tornar uma infraestrutura invisível para o usuário final. Ou seja, pessoas e empresas poderiam usar pagamentos globais mais rápidos e baratos sem necessariamente perceber que, por trás da operação, há uma stablecoin ou uma blockchain.
Kim também afirmou que as stablecoins podem fortalecer o dólar globalmente. Para ele, ao facilitar o acesso a uma versão digital da moeda americana, esses ativos ampliam o alcance do dólar em mercados onde sistemas bancários tradicionais são caros, lentos ou limitados.
Rossi, por sua vez, disse que um dos maiores equívocos em mercados desenvolvidos é achar que stablecoins são desnecessárias porque o sistema bancário atual “funciona bem”. Para ele, essa visão ignora que o dinheiro tradicional ainda não foi plenamente adaptado à internet. “Sim, funciona. Mas não é dinheiro digital, não é o dinheiro da internet”, afirmou.
O executivo da Anchorage também chamou atenção para a velocidade com que bancos podem entrar nesse mercado. Segundo ele, a mudança de postura regulatória nos Estados Unidos e o avanço de regras para stablecoins deram “sinal verde” para grandes instituições financeiras competirem com empresas nativas de cripto.
“Eu não subestimaria os bancos”, disse Rossi, citando o JPMorgan como exemplo de instituição tradicional que já possui uma das operações mais sofisticadas em ativos digitais. Para ele, cripto é um negócio lucrativo para muitas empresas no mundo, e os bancos também querem disputar esse espaço.
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