Plataformas de mercados de previsão somavam 2,18 milhões de acessos no Brasil no primeiro trimestre de 2026 antes de serem bloqueadas pelo governo, segundo levantamento do Aposta Legal com base em dados de tráfego digital.
O volume mostra que sites como Polymarket e Kalshi lideravam com folga os acessos e já tinham presença relevante entre usuários brasileiros antes da ofensiva regulatória anunciada em 24 de abril.
Ao todo, 27 domínios ligados a mercados preditivos foram bloqueados pelas autoridades brasileiras. Parte dessas plataformas oferecia contratos financeiros baseados em eventos futuros que, na prática, poderiam ser enquadrados como produtos semelhantes a apostas, mas sem autorização dos órgãos competentes no país.
O Polymarket foi, de longe, a plataforma mais acessada entre as bloqueadas. Segundo o levantamento, o site registrou 1,46 milhão de acessos no Brasil no primeiro trimestre, o equivalente a quase dois terços de todo o tráfego mapeado. Fundada em 2020 nos Estados Unidos, a plataforma ganhou projeção global durante as eleições americanas de 2024, quando seus mercados passaram a ser acompanhados como termômetro político.
A Kalshi apareceu em segundo lugar, com 250 mil acessos e 11,4% do total. A empresa é uma das principais concorrentes do Polymarket e chegou a iniciar sua entrada no Brasil por meio de uma parceria com a XP Investimentos.

Outros nomes também tiveram presença relevante. A Robinhood somou 118 mil acessos, apesar de não aceitar formalmente usuários brasileiros em seus produtos de corretagem. Sua inclusão na lista de bloqueios está ligada aos chamados “event contracts”, contratos de eventos que passaram a ser oferecidos nos Estados Unidos a partir de 2025. A PredictIt registrou 96,3 mil acessos, enquanto o IBKR ForecastTrader, da Interactive Brokers, teve 91,7 mil.
A concentração do tráfego é um dos pontos centrais do levantamento. As cinco maiores plataformas responderam por 92,2% de todos os acessos, enquanto as outras 22 dividiram menos de 8% do volume. Isso sugere que o mercado ainda era dominado por poucos nomes globais, mesmo antes de ganhar escala mais ampla no Brasil.
Outro dado relevante é que 10 das 27 plataformas bloqueadas tinham pouquíssimos acessos vindos do Brasil no primeiro trimestre. Entre elas aparecem nomes como OG, Fanatics Markets, Novig, Hedgehog Markets, PolySwipe, PRED Exchange, Ruckus Market e Stride.
Governo fecha o cerco
Mercados de previsão funcionam como uma espécie de bolsa de apostas sobre acontecimentos futuros. Usuários podem comprar e vender contratos sobre temas como o resultado de uma eleição, o vencedor de uma partida, o preço do Bitcoin ou decisão de juros.
Se um contrato sobre determinado evento é negociado a R$ 0,65, por exemplo, isso indica que o mercado atribui 65% de probabilidade àquele desfecho. Caso o evento se confirme, o contrato paga R$ 1; se não se confirmar, paga zero.
Leia também: Kalshi ou Polymarket: Qual é o melhor mercado de previsão?
Para os defensores desse modelo, a principal vantagem é transformar expectativas coletivas em preços, criando um mecanismo que poderia antecipar resultados com mais eficiência do que pesquisas ou previsões tradicionais. Para reguladores, porém, o problema está na semelhança funcional com apostas de quota fixa, em que o usuário arrisca dinheiro em troca de um prêmio futuro definido por odds ou probabilidades.
Segundo o Aposta Legal, a decisão do governo indica uma atuação preventiva do governo, que não esperou a consolidação dessas plataformas no mercado local para bloquear os domínios.
A estratégia marca uma mudança na postura regulatória. Em vez de reagir apenas depois que um produto atinge grande base de usuários, o governo passou a monitorar o mercado internacional de contratos de evento e a agir com base na natureza do serviço oferecido. Essa abordagem é especialmente relevante porque, pela legislação brasileira, apostas em eleições são explicitamente proibidas, e ao menos cinco das plataformas bloqueadas ofereciam contratos desse tipo.
O bloqueio também ocorre em um momento de maior escrutínio sobre o setor de apostas online no Brasil. Desde a regulamentação das bets, o governo vem tentando separar operadores autorizados de plataformas consideradas irregulares. No caso dos mercados de previsão, a fronteira é mais complexa, já que muitas empresas se apresentam como mercados financeiros de probabilidades, e não como casas de apostas tradicionais.
Mesmo assim, o levantamento mostra que esses produtos já haviam encontrado público no Brasil. Com mais de 2 milhões de acessos em apenas três meses, os mercados de previsão bloqueados deixaram de ser um nicho distante e passaram a entrar no radar regulatório nacional.
O desafio, daqui para frente, será definir se esse tipo de produto poderá existir no país sob alguma licença específica ou se continuará sendo tratado como aposta irregular quando envolver dinheiro e eventos futuros.
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