Novos documentos revelados em um tribunal federal de Manhattan trouxeram detalhes inéditos sobre as acusações de uso de informações privilegiadas (insider trading) contra a Jane Street no colapso da TerraUSD, a stablecoin algorítmica da Terraform Labs que implodiu em maio de 2022 e apagou cerca de US$ 40 bilhões do mercado cripto.
O caso em si já era conhecido desde fevereiro, quando o administrador responsável pela liquidação da Terraform processou a Jane Street acusando a firma de lucrar com a queda da UST usando informações privilegiadas. A novidade agora está na versão menos redigida da ação judicial, tornada pública na semana passada, que expôs novas conversas internas, detalhes de operações e a suposta existência de um canal privado no Telegram entre funcionários ligados à Terraform e a mesa da Jane Street.
Segundo os documentos citados pelo CoinDesk, a vantagem da Jane Street teria vindo de um backchannel privado envolvendo Bryce Pratt, ex-estagiário da Terraform que passou a trabalhar na Jane Street, e antigos colegas dentro da empresa de Do Kwon.
A ação afirma que esse fluxo de informações permitiu que a firma se desfizesse de sua posição em UST perto da paridade com o dólar antes do colapso e, posteriormente, montasse posições vendidas que teriam gerado cerca de US$ 134 milhões em lucro enquanto o ecossistema Terra desmoronava.
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Entre os novos trechos revelados, o processo cita uma mensagem em que Pratt teria dito que colegas deveriam ficar “ligeiramente satisfeitos” por terem uma “vantagem informacional”. A ação também afirma que traders da Jane Street discutiram como “desativar” carteiras depois que uma empresa de análise on-chain identificou que a firma havia “ganhado muito dinheiro” com a operação.
Outro ponto que ganhou mais detalhes envolve a operação considerada por muitos analistas como um dos gatilhos do colapso da UST. Segundo a nova versão da queixa, a Jane Street teria vendido US$ 85 milhões em UST na Curve Finance apenas nove minutos depois de a Terraform retirar discretamente US$ 150 milhões em liquidez do mesmo pool.
Desde 2022, o mercado já apontava uma grande ordem na Curve como peça importante na quebra da paridade da stablecoin. Agora, o administrador da Terraform afirma que a carteira usada na operação pertencia à Jane Street.
A Jane Street continua negando as acusações. Em nota, a empresa afirmou que o processo é uma tentativa “transparente” de recuperar dinheiro de perdas causadas por “uma fraude bilionária perpetrada pela administração da Terraform Labs”. A firma também classificou as alegações como “infundadas” e “oportunistas” e pediu que a Justiça rejeite o caso.
O processo também cita o cofundador da Jane Street, Robert Granieri, e o trader Michael Huang, além de alegar violações das leis federais de valores mobiliários e da Commodity Exchange Act. A ação busca recuperar os lucros supostamente obtidos pela firma para ressarcir credores da Terraform.
A Terraform Labs e seu fundador, Do Kwon, já haviam sido responsabilizados em outros processos relacionados ao colapso da TerraUSD e da Luna. Em 2024, a empresa fechou um acordo de US$ 4,47 bilhões com a SEC após ser acusada de enganar investidores sobre a estabilidade do ecossistema.
Os novos documentos, porém, adicionam uma camada diferente à história: a possibilidade de que grandes firmas de Wall Street não apenas tenham reagido rapidamente ao colapso da Terra, mas tenham tido acesso antecipado a informações internas que permitiram sair antes da quebra e lucrar com ela.
Ainda não há decisão sobre o mérito das acusações. Mas a revelação de novas mensagens, operações e conexões internas coloca novamente a Jane Street no centro de uma das passagens mais controversas da história recente do mercado cripto.
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