Michael Burry, investidor que ficou mundialmente conhecido por prever a crise imobiliária de 2008 retratada no livro A Grande Aposta (The Big Short), voltou a soar o alerta sobre o mercado americano.
Em uma publicação no Substack, Burry afirmou que o Nasdaq 100 vive uma valorização “parabólica” impulsionada pelo entusiasmo com inteligência artificial e comparou o cenário atual ao período que antecedeu o estouro da bolha da internet no início dos anos 2000.
Segundo ele, o índice negocia atualmente a cerca de 43 vezes os lucros das empresas, muito acima do nível que considera razoável, próximo de 30 vezes. Na visão do investidor, Wall Street estaria superestimando em mais de 50% os lucros futuros das companhias de crescimento mais acelerado e com maiores valuations do mercado.
“Estamos testemunhando história. No mercado de ações, isso não é uma coisa boa”, escreveu Burry. Em outro trecho, comparou o momento atual à “cena de um acidente de carro sangrento minutos antes de acontecer”.
O principal símbolo desse excesso, segundo o investidor, seria o rali das empresas de semicondutores. O índice Philadelphia Semiconductor Index acumula alta próxima de 70% desde o fim de março, movimento impulsionado principalmente pela corrida global por inteligência artificial e pela demanda crescente por chips usados em data centers e modelos de IA generativa.
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Dados da Bespoke Investment Group mostram que o índice de semicondutores só ficou tão distante de sua média móvel de 200 dias em outros dois momentos: julho de 1995 e março de 2000, justamente no auge da bolha das empresas de internet.
O alerta de Burry surge em meio ao forte avanço das ações ligadas à inteligência artificial, puxado por empresas como Nvidia, Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta. O entusiasmo com IA ajudou os principais índices americanos a renovarem recordes históricos mesmo em um cenário de tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã, inflação ainda elevada e juros altos.
Não aposte na crise ainda
Ao contrário do que muitos esperavam, porém, Burry afirmou não recomendar apostas agressivas contra o mercado neste momento. Segundo ele, operações vendidas podem ser caras e perigosas devido ao custo de opções e ao risco de que o rali continue por mais tempo do que o previsto.
Ainda assim, o investidor disse estar reduzindo exposição a ações que não atendem aos seus critérios mais rígidos de valuation e recomendou que investidores realizem parte dos lucros recentes, especialmente em empresas de tecnologia e na chamada “AI trade”.
“Mesmo que pareça haver mais espaço para subir, quem está surfando esses movimentos parabólicos e decide não vender está apostando na própria capacidade de sair perto do topo”, escreveu.
As declarações também coincidem com um momento de maior tensão nos mercados globais. O petróleo Brent voltou a subir e superou US$ 105 por barril após dúvidas sobre um cessar-fogo envolvendo o Irã aumentarem preocupações com o Estreito de Hormuz, rota estratégica para o petróleo mundial.
O rendimento dos títulos de dez anos do Tesouro americano avançou para 4,42%, enquanto o dólar se fortaleceu diante da busca global por ativos considerados mais seguros.
O mercado cripto também entrou no radar dessa discussão. Analistas apontam que um cenário de inflação persistente, petróleo elevado e correção nas ações de tecnologia pode pressionar ativos de risco, incluindo Bitcoin e criptomoedas ligadas à narrativa de IA. Ao mesmo tempo, um dado de inflação mais fraco nos Estados Unidos poderia dar sobrevida ao rali recente tanto das ações quanto dos criptoativos.
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Burry se tornou uma referência para investidores após apostar corretamente contra o mercado imobiliário americano antes da crise de 2008. Desde então, porém, seus alertas nem sempre se concretizaram no curto prazo.
Ainda assim, suas análises costumam ganhar grande repercussão justamente por virem de um dos nomes mais associados às grandes bolhas financeiras das últimas décadas.
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