Apesar da promessa de Donald Trump de barrar a criação de uma moeda digital de banco central (CBDC) nos Estados Unidos, a discussão sobre um dólar digital continua avançando nos bastidores, segundo Timothy Massad, ex-presidente da CFTC, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA.
Em entrevista ao CoinDesk durante o Digital Money Summit 2026, em Londres, Massad afirmou que o tema segue politicamente sensível em Washington, mas não desapareceu da agenda. Segundo ele, a dinâmica global do mercado e os experimentos internacionais com dinheiro tokenizado tornam inevitável que os EUA estudem alguma forma de infraestrutura pública para liquidação de ativos digitais.
A declaração contrasta com a posição pública de Trump. Em janeiro de 2025, o presidente assinou uma ordem executiva proibindo agências federais de tomar medidas para criar, emitir ou promover uma CBDC nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que apoiou o avanço de stablecoins privadas lastreadas em dólar.
A resistência também ganhou força no Congresso. Em março de 2026, o Senado aprovou por ampla maioria um projeto que inclui uma emenda para impedir o Federal Reserve de emitir uma moeda digital de banco central até 2030, embora o texto ainda dependa da Câmara dos Representantes.
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Pressão internacional
Segundo Massad, porém, a pressão internacional está empurrando os EUA na direção oposta. O principal exemplo citado por ele foi o Project Agora, iniciativa liderada pelo BIS, o Banco de Compensações Internacionais, que reúne sete bancos centrais — incluindo o Federal Reserve Bank de New York — e dezenas de instituições privadas para testar pagamentos e liquidação com dinheiro tokenizado.
“A gente não tem um presidente de banco central que vá falar publicamente sobre CBDC de atacado ou de varejo, mas isso não significa que não estamos olhando como criar uma”, afirmou Massad.
A discussão gira especialmente em torno das chamadas CBDCs de atacado, usadas entre instituições financeiras para liquidação de grandes transações, e não necessariamente de uma moeda digital acessível diretamente ao público. Projetos como o Agora buscam integrar depósitos tokenizados de bancos comerciais e dinheiro de banco central em plataformas programáveis para pagamentos internacionais.
O Federal Reserve tem evitado tratar o tema publicamente como uma CBDC tradicional. Jerome Powell, presidente do Fed, já afirmou anteriormente que a instituição não lançaria uma moeda digital de banco central sob sua liderança.
Para Massad, no entanto, o avanço das finanças tokenizadas pode obrigar os Estados Unidos a criarem alguma alternativa apoiada pelo governo para não perder espaço para Europa, China e outros mercados que já avançam em infraestrutura digital de pagamentos e liquidação.
Na prática, a disputa parece ter deixado de ser apenas sobre emitir ou não uma CBDC. O debate agora envolve quem controlará os trilhos do dinheiro tokenizado no futuro. Mesmo rejeitando publicamente um dólar digital de varejo, os EUA seguem participando de projetos internacionais que exploram exatamente esse tipo de infraestrutura financeira baseada em blockchain.
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