A indústria de criptomoedas gastou cerca de US$ 8 milhões em lobby direto no primeiro semestre de 2026 para tentar aprovar o Clarity Act, projeto que buscava estabelecer regras mais claras para o mercado de ativos digitais nos Estados Unidos, mas acabou fracassando em uma votação decisiva no Senado em setembro.
O levantamento foi feito pelo CoinDesk a partir de registros federais de lobby. Ao todo, empresas e associações ligadas ao setor cripto gastaram mais de US$ 13 milhões em atividades de influência política entre janeiro e junho, sendo que aproximadamente US$ 8 milhões estavam ligados explicitamente ao esforço para aprovar a legislação de estrutura de mercado.
O valor não inclui recursos destinados a campanhas eleitorais nem os gastos gerais com associações do setor. Trata-se especificamente de lobby registrado, realizado por funcionários das próprias empresas, entidades de classe e consultorias contratadas para atuar junto ao Congresso e outras autoridades federais.
Segundo a análise, cerca de US$ 2,4 milhões foram destinados a firmas externas de lobby, enquanto outros US$ 2,1 milhões bancaram profissionais empregados por associações do setor. O restante veio das estruturas internas das próprias empresas de criptomoedas. Pelo menos 42 firmas especializadas em lobby receberam dinheiro do setor no período.
A Coinbase foi a empresa que mais gastou diretamente na campanha ligada ao Clarity Act, com aproximadamente US$ 2,2 milhões. A Kraken desembolsou quase US$ 1 milhão, enquanto Digital Currency Group, Jump Crypto e Paradigm também aparecem entre os principais participantes do esforço.
Clarity Act chegou perto, mas não conseguiu avançar
O Clarity Act era uma das principais prioridades políticas da indústria cripto nos Estados Unidos. A proposta pretendia criar uma divisão mais clara de responsabilidades entre a Securities and Exchange Commission (SEC) e a Commodity Futures Trading Commission (CFTC), além de estabelecer regras específicas para emissores, plataformas de negociação e outros participantes do mercado de ativos digitais.
Em uma das versões discutidas no Congresso, a CFTC ganharia maior autoridade sobre ativos classificados como commodities digitais, enquanto a SEC continuaria responsável por ativos considerados valores mobiliários. O projeto também previa exigências de divulgação de informações, regras contra manipulação de mercado e obrigações de registro para determinadas empresas.
Depois de meses de negociações, o projeto passou pelo Comitê Bancário do Senado em maio por 15 votos a 9, com apoio de integrantes dos dois partidos. Em setembro, porém, não conseguiu reunir os 60 votos necessários em uma votação processual no plenário do Senado e deixou de avançar.
O resultado veio depois de divergências que cresceram durante a elaboração do texto. Republicanos que apoiavam a proposta argumentavam que o projeto criaria regras mais claras, reforçaria a proteção ao consumidor e reduziria a insegurança jurídica enfrentada pelas empresas do setor.
Já integrantes democratas e grupos críticos apontavam lacunas em temas como proteção ao investidor, combate a crimes financeiros e limites à atuação de empresas cripto. A minoria democrata do Comitê Bancário também criticou partes do texto relacionadas à aplicação das leis de valores mobiliários e aos mecanismos contra lavagem de dinheiro.
A própria indústria também teria enfrentado dificuldades para apresentar uma posição unificada. Pessoas envolvidas nas negociações relataram à CoinDesk divergências entre empresas, associações e lobistas sobre pontos relevantes do texto, o que teria dificultado a construção de consenso em torno da versão final.
Coinbase liderou gastos e setor muda foco para SEC e CFTC
Apesar da derrota, as empresas que participaram do esforço afirmam que o investimento não foi totalmente perdido.
A Coinbase disse ao CoinDesk que o trabalho ajudou a levar uma legislação ampla e bipartidária sobre estrutura de mercado para perto da aprovação e criou uma base para avanços regulatórios posteriores. O gasto total da empresa com lobby foi suficiente para colocá-la entre as dez maiores organizações da categoria de valores mobiliários e investimentos acompanhada pela OpenSecrets, segundo a reportagem.
Considerando também atividades de lobby que não mencionaram explicitamente o Clarity Act, a Coinbase liderou os gastos do setor. A Andreessen Horowitz, ou a16z, desembolsou cerca de US$ 1,5 milhão; a Binance, US$ 1,4 milhão; e a Crypto.com, aproximadamente US$ 1,2 milhão no primeiro semestre, segundo os registros analisados.
Parte desses recursos, no entanto, foi usada em outras pautas, como tributação, mineração, implementação de regras para stablecoins, combate ao financiamento ilícito e discussões diretamente com reguladores. Por isso, os US$ 8 milhões relacionados ao Clarity Act representam apenas a parcela dos registros que mencionava explicitamente a legislação de estrutura de mercado.
Com o impasse no Congresso, parte da estratégia do setor começa a se deslocar para as próprias agências reguladoras. A Blockchain Association disse que pretende aprofundar sua atuação junto à SEC e à CFTC depois do fracasso da votação de setembro.
O Clarity Act ainda poderia voltar à discussão no curto período legislativo após as eleições, mas fontes ouvidas pela CoinDesk consideram incerto se haverá espaço político para uma nova tentativa ainda neste ano. Ao mesmo tempo, SEC e CFTC continuam trabalhando em iniciativas próprias para estabelecer regras para ativos digitais.
O episódio mostra também a dimensão financeira que a disputa regulatória ganhou em Washington. Além dos milhões destinados diretamente ao lobby, o setor cripto mantém fundos políticos superiores a US$ 100 milhões voltados às eleições — uma frente separada do esforço legislativo em torno do Clarity Act.
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