O Bitcoin foi o ativo com melhor desempenho entre oito mercados acompanhados em um levantamento que compara quase todo o terceiro trimestre de 2026. Entre o fechamento de 30 de junho e 28 de setembro, a maior criptomoeda do mundo avançou 42,79%, superando petróleo, ouro, prata, bolsas americanas, Ibovespa e o dólar.
Levantamento do Portal do Bitcoin mostra que BTC saiu de US$ 58.558 no fim de junho para US$ 83.616 em 28 de setembro – alta que segue se estendendo e já chega a mais de 44% neste último dia do mês. O petróleo tipo Brent ficou na segunda colocação, com alta de 34,05%, seguido pelo Ibovespa, que avançou 6,38%.
O restante dos ativos teve desempenho bem mais modesto. O ouro subiu 4,71%, a prata ganhou 3,26%, enquanto S&P 500 e Nasdaq avançaram 2,46% e 2,31%, respectivamente. O DXY, índice que mede o dólar contra uma cesta de moedas fortes, praticamente terminou no mesmo nível, com alta de apenas 0,03%.
O resultado chama atenção porque o período esteve longe de ser tranquilo para os mercados. O trimestre foi marcado pela disparada dos preços do petróleo, aumento dos rendimentos dos títulos públicos americanos, dúvidas sobre a inflação e uma mudança de direção do Federal Reserve (Fed), que voltou a elevar os juros em setembro. Ainda assim, o Bitcoin conseguiu se descolar dos demais ativos e registrar uma valorização muito superior.

Rali de agosto coloca Bitcoin acima de US$ 80 mil
Boa parte da diferença foi construída a partir da segunda metade de agosto.
No dia 18 daquele mês, o Bitcoin ainda estava próximo de US$ 64.700. Apenas uma semana depois, já rondava os US$ 80 mil. O movimento ganhou força depois que o Tesouro dos Estados Unidos ampliou a recompra de títulos de dívida de longo prazo, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os juros mais longos.
A medida não equivale a uma nova rodada de estímulos monetários, mas ajudou a derrubar temporariamente os rendimentos dos Treasuries e pressionou o dólar. Para o Bitcoin, o efeito foi duplo: ativos que não pagam juros ficaram relativamente mais atraentes e voltou ao mercado a tese de proteção contra a deterioração do poder de compra das moedas — o chamado debasement trade.
O movimento também encontrou um mercado preparado para subir. A arrancada de aproximadamente 25% naquele período provocou a liquidação de cerca de US$ 4 bilhões em posições pessimistas sobre criptomoedas, ampliando o que é conhecido como short squeeze.
Ao mesmo tempo, o dinheiro institucional voltou a entrar com força. Os ETFs de Bitcoin à vista dos Estados Unidos registraram oito sessões consecutivas de entradas até 27 de agosto, acumulando aproximadamente US$ 2,8 bilhões nesse intervalo.
Dados mais amplos da CoinShares mostram movimento semelhante. Os produtos de investimento em ativos digitais receberam US$ 2,94 bilhões na semana encerrada em 20 de agosto, maior entrada semanal de 2026 até então. Nos três primeiros pregões da semana seguinte, outros US$ 1,65 bilhão haviam entrado nesses produtos, sendo US$ 976 milhões direcionados ao Bitcoin.
O cenário regulatório também ajudou. Sinais de Washington em favor de regras mais claras para o setor contribuíram para melhorar o sentimento dos investidores. O Bitcoin havia subido cerca de 16% após uma nova pressão do governo Donald Trump para que o Congresso avançasse na regulamentação do mercado cripto.
Bitcoin sobe mesmo com Fed aumentando os juros
Setembro trouxe um teste diferente. No dia 16, o Federal Reserve elevou a taxa básica de juros dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4%. Foi a primeira alta de juros do banco central americano em mais de três anos, em resposta a uma inflação ainda persistente. A maioria dos dirigentes também indicou naquele momento a possibilidade de mais um aumento antes do fim de 2026.
Normalmente, juros mais altos são um obstáculo para ativos de maior risco. Eles elevam o retorno dos títulos públicos, encarecem o crédito e tornam aplicações mais conservadoras relativamente mais atraentes.
Foi exatamente essa pressão que limitou o desempenho das bolsas americanas. No levantamento, o Nasdaq avançou apenas 2,31% no período, enquanto o S&P 500 ganhou 2,46%.
O Bitcoin, porém, reagiu de maneira diferente. A criptomoeda estava perto de US$ 76 mil no fechamento de 16 de setembro e voltou a acelerar nos dias seguintes. Na semana seguinte, chegou a ser negociada acima dos US$ 87 mil, mesmo com a mensagem mais dura do Fed e com o avanço dos rendimentos dos títulos americanos.
Para a gestora, a reação refletiu uma combinação de entrada de recursos em fundos, acumulação por grandes investidores e preocupações crescentes com a trajetória fiscal e monetária americana. Ou seja, parte do mercado passou a enxergar o Bitcoin não apenas como um ativo de risco beneficiado por juros menores, mas também como uma alternativa a ativos soberanos em um momento de maior preocupação com dívida e inflação.
Essa leitura ganhou importância porque o trimestre também foi difícil para o mercado de títulos. Os rendimentos dos Treasuries de dez anos superaram 5%, atingindo o maior nível desde antes da crise financeira de 2007, enquanto os juros de longo prazo também avançaram em outros grandes mercados.
O desempenho do Bitcoin, portanto, ocorreu em um ambiente diferente daquele observado em vários ralis anteriores: em vez de uma combinação clara de queda de juros e forte apetite por risco, a criptomoeda subiu enquanto o mercado debatia inflação elevada, aperto monetário e deterioração fiscal.
Petróleo dispara e fica em segundo lugar
Se o Bitcoin liderou o levantamento, o petróleo apresentou a segunda maior valorização — mas por motivos bastante diferentes. O Brent passou de US$ 72,92 para US$ 97,75 no período, uma alta de 34,05%.
O avanço foi impulsionado principalmente pelo aumento do risco geopolítico e pelas preocupações com o abastecimento global. O conflito envolvendo o Irã colocou no centro das atenções o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o comércio mundial de petróleo.
Em setembro, os preços chegaram a superar US$ 100 por barril. No dia 24, por exemplo, o Brent fechou a US$ 106,60 após um ataque de rebeldes houthis contra a Arábia Saudita reacender temores de interrupções na oferta. A Reuters classificou o período como o segundo maior avanço trimestral do petróleo desde o segundo trimestre de 2020.
A alta da energia, por sua vez, alimentou exatamente um dos riscos que pressionaram os demais mercados: inflação mais alta e juros elevados por mais tempo.
O ouro conseguiu avançar 4,71% e a prata, 3,26%, beneficiados em parte pela busca por proteção em meio às tensões geopolíticas e fiscais. No fim do período, porém, a alta dos juros americanos e a recuperação do dólar passaram a pesar sobre os metais. Em 24 de setembro, a Reuters apontava justamente o petróleo mais caro e a postura mais dura do Fed como fatores de pressão sobre o ouro.
No Brasil, o Ibovespa apresentou o terceiro melhor desempenho da lista, com valorização de 6,38%. O movimento ocorreu enquanto o Banco Central brasileiro prosseguia com o ciclo de redução da Selic. Em setembro, a taxa foi cortada pela quinta vez consecutiva, para 13,75% ao ano, enquanto as projeções da autoridade monetária passaram a indicar inflação próxima da meta no horizonte relevante para a política monetária.
O mercado brasileiro também passou a incorporar cada vez mais o cenário eleitoral. Analistas apontam que a melhora de Flávio Bolsonaro nas pesquisas contribuiu para uma alta dos ativos brasileiros em setembro, já que investidores enxergavam suas propostas econômicas como mais favoráveis ao mercado.
Mesmo com movimentos importantes em praticamente todas as classes de ativos, nenhum deles chegou perto do Bitcoin.
Considerando os fechamentos de 30 de junho e 28 de setembro, uma aplicação hipotética de US$ 10 mil em Bitcoin teria se transformado em aproximadamente US$ 14,3 mil. No petróleo Brent, o mesmo valor teria chegado a cerca de US$ 13,4 mil. No Ibovespa, equivaleria a aproximadamente US$ 10,6 mil. No S&P 500 e no Nasdaq, os US$ 10 mil teriam se transformado em pouco mais de US$ 10,2 mil.
O levantamento mostra, portanto, um trimestre no qual diferentes mercados foram afetados pelas mesmas forças — petróleo, inflação, juros, geopolítica e política fiscal —, mas reagiram de maneiras distintas. E o Bitcoin foi quem mais se beneficiou dessa combinação.
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