Imagem da matéria: O executivo brasileiro que virou cliente da Binance sem saber e luta para recuperar R$ 230 mil
Imagem ilustrativa (Foto: Shutterstock)

Um empresário brasileiro entrou sem saber para o mercado de criptomoedas e descobriu da pior forma possível: ele teve uma conta aberta por estelionatários que usaram seus dados na Binance. Desde outubro de 2021, ele vem lutando com os advogados da corretora para resolver um problema de R$ 230 mil.

O homem, um executivo paulistano que pediu para não ter o nome revelado, foi vítima no final do ano passado de um golpe de estelionato quando tentava comprar um carro. Segundo ele, criminosos se passaram por vendedores do automóvel. Nesse período, os golpistas criaram uma conta na Binance usando seu nome, CPF e uma foto aleatória de um RG de outra pessoa.

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Bem conectado, o executivo que atua no segmento de consultoria para grandes empresas, teve acesso direto aos advogados da Binance/B Fintech via Whatsapp. Ele segue em negociações com a corretora, mas esse mesmo advogado admitiu que há outras fraudes dentro da exchange e que a companhia investiga se funcionários estão envolvidos nos crimes.

A reportagem teve acesso ao boletim de ocorrência do caso e dezenas de trocas de mensagens entre os envolvidos. Até o momento da publicação, o problema ainda não havia sido resolvido.

Como foi o esquema

Segundo a vítima, quando o dinheiro da compra do automóvel foi depositado, os criminosos imediatamente o transferiram para a conta que havia sido criada na Binance. De lá, o dinheiro foi transferido outro endereço, também dentro da corretora.

Os golpistas demonstraram conhecer os trâmites da exchange: a transferência de valores entre contas da Binance só pode ser feita quando é acionada por uma carteira associada ao CPF de quem fez o aporte. Por isso, a quadrilha teve o cuidado de fazer a conta com o número correto do CPF do empresário, para conseguir movimentar o dinheiro assim que caísse.

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Trecho do Boletim de Ocorrência feito pela vítima

Cerca de uma hora depois de ter transferido o dinheiro, o empresário diz ter percebido haver caído em um golpe quando a concessionária ligou perguntando se ele iria mesmo depositar o dinheiro naquele dia (a loja de carros foi envolvida, sem saber, no golpe).

A vítima ligou para seu banco e começou o processo de rastrear o dinheiro até chegar na Binance. A corretora confirmou que ele tinha uma conta lá, com seu CPF. Ele nem sequer tinha ter ouvido falar da empresa até então.

A exchange determinou então o congelamento de dois endereços: o que recebeu o dinheiro vindo da transferência externa com origem em um banco tradicional, de R$ 100 mil, e o outro, dentro da própria exchange, que acolheu o valor da transferência, de 0,66438200 BTC (cerca de R$ 130 mil).

“Eu disse ao advogado deles: ‘Está tudo comprovado e esse crime só ocorreu porque vocês estão vulneráveis. Vocês permitiram uma fraude, permitiram que abrissem uma conta no meu nome”, disse o empresário em conversa com o Portal do Bitcoin.

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Ele conta que os bandidos tentaram abrir contas em seu nome em outras instituições usando os mesmos dados — sem sucesso. “Tem uma fraude acontecendo, tem alguém sabendo que tem essa facilidade de fazer a fraude acontecer lá”, reclama.

Procurada para comentar sobre como foi possível a criação da conta do empresário com RG de outra pessoa, a corretora enviou a seguinte nota para a reportagem: “A Binance informa que segurança é prioridade para a empresa e que atua em total colaboração com as autoridades locais, inclusive em casos de eventuais investigações policiais.”

Em busca do dinheiro perdido

De acordo com a vítima, uma funcionária da Binance no Brasil entrou em contato com ele e disse que bastava apresentar um documento mostrando que a polícia estava investigando o caso para que o dinheiro fosse devolvido.

O empresário já tinha o Boletim de Ocorrência e depois conseguiu um ofício, assinado pelo delegado Paulo Eduardo Pereira Barbosa. No documento, a Polícia Civil declara ter sido “apurado que o senhor foi vítima de crime de estelionato” e que não se opõe a Binance devolver o dinheiro para a vítima.

A Polícia pode apenas fazer uma recomendação, sendo que somente um juiz pode determinar que houve crime em alguma situação.

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Ofício assinado pelo delegado Paulo Eduardo Pereira Barbosa

Com os documentos em mão, conta o empresário, o discurso da empresa mudou. A direção passou o caso para os advogados e o dinheiro não foi devolvido. A novela se arrasta desde dezembro. A vítima apresentou uma notificação extrajudicial alertando que se a Binance não devolvesse o dinheiro em quinze dias, iria entrar com um processo na Justiça. O prazo se expirou no dia 25 de fevereiro. Nada foi pago.

Em mensagens às quais o Portal do Bitcoin teve acesso, o advogado da exchange, Gilberto de Aguiar Caetano, diz já ter aconselhado a empresa para que restitua o dinheiro do empresário. “Eu já opinei pela devolução”, disse Caetano em conversa com a vítima.

“Estão acontecendo diversas fraudes”

Nos diálogos de WhatsApp aos quais a reportagem teve acesso o advogado da Binance Gilberto de Aguiar Caetano diz que há “diversas outras fraudes” ocorrendo dentro da corretora e que há uma investigação sobre a eventual participação de funcionários da empresa nos golpes.

No dia 20 de janeiro, Gilberto afirma que não tem novidades sobre o caso, mas diz que “tem grandes chances de liberarem [o dinheiro]“. Na mesma conversa, o advogado diz que a empresa está demorando para liberar a devolução por uma precaução de que não estaria caindo em outro golpe.

É nesse ponto em que ele admite que esse não é um caso isolado e que ele concorda que a plataforma foi utilizada para estelionato: “Estão acontecendo diversas fraudes, daí eles estão cautelosos. Mas de qualquer forma eu já opinei pela devolução”.

Por fim, o advogado diz: “Esse é outro motivo que estão analisando. Querem ver se não teve participação de nenhuma pessoa internamente”.

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Confusão judicial

Até março deste ano, uma confusão ocorria quando um cliente brasileiro tentava buscar reparação na Justiça por se sentir lesado pela Binance. Em geral acionava-se a B Fintech, empresa fundada no Brasil pelo empresário sino-canadense Changpeng “CZ” Zhao, o CEO da corretora internacional.

As empresas alegavam que tinham o mesmo dono, mas não respondiam de forma solidária. Porém, em pelo menos três casos, a Justiça brasileira discordou e determinou que B Fintech era responsável pelos atos da corretora.

Paralelamente a Binance abria um CNPJ em fevereiro. Em abril, ela entrou na sociedade da B Fintech no lugar de CZ.

Mas a mistura de interesse e atuação das duas empresas já ocorria muito antes dessa formalização. O advogado Gilberto Caetano pediu que o empresário lesado copiasse Thiago Donato dos Santos, advogado da B Fintech.

Em março, CZ veio ao Brasil e fez um tour, tendo conversado com o governador de São Paulo, João Doria, com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e com o diretor de Regulação do Banco Central (BC), Otavio Ribeiro Damaso.

A vinda do empresário veio logo depois de a companhia dar um passo mais concreto para se instalar aqui: no dia 14 de março a Binance assinou um Memorando de Entendimentos manifestando o interesse na aquisição da Sim;paul Investimentos, corretora brasileira autorizada pelo Banco Central do Brasil e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Depois, CZ tuitou falando que, como contrapartida ao fato do Rio de Janeiro anunciar que irá aceitar criptomoedas para pagamentos de impostos, irá abrir um escritório na capital fluminense.

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