Buscar no site

Analistas explicam o real risco da computação quântica ao Bitcoin hoje

Debate sobre a segurança do Bitcoin diante da computação quântica voltou à tona, mas analistas afirmam que a rede tem anos para se preparar

ilustração do Bitcoin ascendente
Shutterstock

A ameaça da computação quântica voltou ao radar do mercado cripto nesta terça-feira (31) após a divulgação de uma nova pesquisa do Google Research, reacendendo uma discussão antiga sobre a segurança do Bitcoin no longo prazo.

O tema ganhou força porque o estudo sugere que o volume de recursos necessário para quebrar a criptografia usada pela rede pode ser menor do que se imaginava até agora, o que naturalmente aumenta a atenção de investidores, empresas do setor e desenvolvedores.

Embora a ideia de um computador quântico capaz de atacar o Bitcoin ainda pareça distante, a nova pesquisa mexe justamente com o prazo desse risco. Em vez de tratar a ameaça como algo puramente teórico e reservado a um futuro muito remoto, o mercado passou a discutir se a janela para adaptação pode ser mais curta do que o previsto.

Na avaliação de André Franco, CEO da Boost Research, o estudo reforça essa mudança de percepção. “O paper conclui que o risco da computação quântica está mais próximo do que se tinha estudado anteriormente”, afirma. Segundo ele, o estudo traça um cenário em que 2029 seria uma espécie de limite seguro para que endereços potencialmente vulneráveis comecem a ser migrados para novos padrões de proteção.

Leia também: Google alerta que ameaça quântica ao Bitcoin pode chegar antes do previsto

Apesar do alerta, especialistas veem o avanço mais como um sinal para acelerar preparativos do que como motivo para pânico imediato. Isso porque, embora o risco tenha ficado mais palpável no papel, ainda existe uma grande distância entre um ganho teórico em pesquisa e a construção, no mundo real, de máquinas quânticas capazes de executar esse tipo de ataque em escala.

O que é a ameaça quântica e o que mudou com o Google

A preocupação gira em torno da capacidade dos computadores quânticos de quebrar sistemas criptográficos usados hoje no Bitcoin. Diferentemente dos computadores tradicionais, que operam com bits — unidades que assumem valor 0 ou 1 —, os computadores quânticos usam qubits, que podem representar múltiplos estados ao mesmo tempo.

Em termos simples, isso permite explorar muitas possibilidades simultaneamente e, em tese, resolver certos problemas matemáticos com muito mais eficiência do que a computação convencional.

É justamente aí que nasce a preocupação do mercado cripto. A segurança do Bitcoin depende de problemas matemáticos que, para computadores normais, são impraticáveis de resolver em tempo hábil. Se computadores quânticos avançarem o suficiente, eles poderiam mudar essa lógica e tornar vulneráveis mecanismos criptográficos hoje considerados seguros.

Segundo Rony Szuster, head de research do MB | Mercado Bitcoin, a rede tem duas frentes principais de exposição à computação quântica. A primeira envolve o SHA-256, algoritmo usado na mineração. A segunda, e mais sensível, está na criptografia de curva elíptica, usada para proteger as chaves dos usuários. “O primeiro problema é gerenciável, porque a função SHA pode ser ajustada aumentando a dificuldade. O problema principal é a criptografia de curva elíptica”, explica.

Na prática, isso significa que o maior medo não está em alguém “minerar mais rápido” com um computador quântico, mas sim em conseguir descobrir uma chave privada a partir de uma chave pública exposta na rede.

Szuster diz que, com um computador quântico poderoso o suficiente e rodando o chamado algoritmo de Shor, isso poderia se tornar possível, algo que hoje não pode ser feito com a computação tradicional.

O novo estudo chamou atenção porque propõe um método mais eficiente para realizar esse tipo de ataque. Antes, uma estimativa era de que seriam necessários cerca de 13 milhões de qubits físicos para quebrar esse tipo de criptografia. Agora, a nova pesquisa sugere que esse número pode cair para algo em torno de 500 mil qubits físicos, uma redução expressiva, da ordem de 20 vezes.

Isso não quer dizer, porém, que a quebra do Bitcoin esteja logo ali na esquina. O analista do MB pondera que reduzir a quantidade de qubits exigidos não resolve automaticamente os demais gargalos.

“Por mais que essa solução precise de menos qubits físicos, esse número de Toffoli Gates também é muito alto. Também é algo muito difícil de você ter operacionalmente”, afirma. Em outras palavras, o estudo melhora a eficiência teórica do ataque, mas continua exigindo uma infraestrutura extremamente complexa, cara e instável para sair do papel.

Leia também: O que é computação quântica? Um guia para iniciantes sobre o computador do futuro

Mesmo assim, o avanço encurta as projeções. Pelas contas apresentadas por Szuster, uma estimativa que antes apontava algo próximo de 14 anos para um ataque viável poderia cair para cerca de 8 ou 9 anos, levando o risco para algo em torno de 2035 ou 2036, caso todas as premissas mais otimistas do estudo se confirmem. Franco, por sua vez, diz que o estudo do Google ajuda a empurrar o debate para mais perto e cita 2029 como uma referência de segurança para começar a migrar endereços mais antigos.

Investidores de Bitcoin devem se preocupar agora?

Na avaliação dos especialistas, a resposta curta é: ainda não, mas o tema merece atenção crescente. Não se trata de um risco imediato para quem tem Bitcoin hoje, mas de uma mudança importante no relógio da discussão. Se antes o assunto podia ser tratado quase como um problema de gerações futuras, agora ele passa a exigir planejamento mais concreto da comunidade e das empresas do setor.

“Acho que medo é uma palavra muito forte, mas existe um receio aqui de que seja feito alguma coisa, porque o risco é iminente”, afirma Franco. Para ele, um dos pontos centrais é que a comunidade do Bitcoin costuma se mover devagar, o que pode dificultar uma resposta coordenada se a discussão não ganhar tração desde já. “A comunidade do Bitcoin se movimenta de maneira muito lenta”, diz.

Por outro lado, o ecossistema já começou a discutir saídas. Szuster afirma que já existem propostas de novos endereços que não usam a criptografia de curva elíptica atual e que recorrem a modelos resistentes à computação quântica. Segundo ele, algumas dessas alternativas já estão em fase de testes, o que reforça a avaliação de que ainda existe tempo para adaptação antes que a ameaça se torne prática.

Leia também: O que a comunidade do Bitcoin está fazendo para protegê-lo da computação quântica?

Nesse cenário, a principal defesa do Bitcoin não seria “vencer” a computação quântica, mas atualizar sua própria infraestrutura de segurança antes que ela amadureça. Isso significaria, na prática, permitir que usuários migrem fundos de endereços antigos para novos formatos protegidos por criptografia pós-quântica. O desafio é que esse processo não envolve apenas tecnologia, mas também consenso social e político dentro da rede.

A discussão fica ainda mais delicada quando entra no terreno das carteiras antigas, perdidas ou inacessíveis. Franco cita que já existe debate sobre o que fazer com esses bitcoins no futuro, inclusive os atribuídos a Satoshi Nakamoto, o misterioso criador da criptomoeda.

“Seria a ideia de congelá-los e conseguir fazer uma nova emissão deles? Não se sabe se isso é o certo a fazer ou deixar eles como prêmio de verdade para quem conseguir trazer a quebra da computação quântica”, afirma.

Leia também: CZ apoia queima de todos os bitcoins de Satoshi Nakamoto; entenda a polêmica

No fim das contas, o novo trabalho ligado ao Google funciona mais como um alerta do que como um gatilho para desespero. A ameaça quântica ficou mais concreta no campo teórico, mas ainda depende de avanços tecnológicos, industriais e econômicos enormes para virar realidade.

Até lá, a mensagem dos analistas é que o investidor não precisa entrar em pânico, mas deve entender que a segurança do Bitcoin no longo prazo dependerá cada vez mais da capacidade da rede de se adaptar antes que o risco deixe de ser hipótese e passe a ser fato.

Liquidez sem vender as suas criptos: se você investe pensando no longo prazo, sabe que desmontar posição tem custo. Com o CriptoCrédito do MB, suas criptos viram garantia para um empréstimo liberado de forma rápida. Dinheiro em até 5 minutos, sem burocracia, direto no app! Conheça agora!